Islândia rejeita a retomada das negociações de adesão à União Europeia
Por Marcus Paiva
🚩 No referendo realizado no último fim de semana, os islandeses rejeitaram a retomada das negociações de adesão à União Europeia, mas por uma margem estreita: 52,8% contra e 47,2% a favor. Isso sugere que as preocupações com a pesca, há muito ligadas ao senso de identidade nacional dos islandeses, prevaleceram nas urnas, triunfando sobre as ameaças à segurança existencial e sobre os argumentos geopolíticos mais amplos em favor da Europa. Por ora, a possível adesão da Islândia à UE foi suspensa. Mas o referendo, no entanto, recolocou o estatuto da Islândia como país europeu e a política de alargamento da UE no centro do debate político.
1️⃣ A Islândia solicitou pela primeira vez a adesão à União Europeia em 2009, após a grave crise econômica que atingiu o país em decorrência da crise financeira global de 2008-2009. O argumento era de que a Islândia se sairia muito melhor se ancorasse economicamente à UE, uma entidade muito maior e mais resiliente. Tornou-se oficialmente um país candidato em 2010 e, até 2013, já havia concluído provisoriamente 11 dos 35 capítulos de negociação, devido à sua profunda integração com a UE por meio do Espaço Econômico Europeu (EEE). O processo foiinterrompidoapós uma mudança de governo em 2013.
2️⃣ O atual governo, liderado pela primeira-ministra Kristrun Frostadóttir, havia prometido realizar o referendo sobre a retomadadas negociações de adesão à UE em 2027. A guerra em curso da Rússia na Ucrânia e as repetidas reivindicações de Donald Trump sobre a Groenlândia trouxeram a questão da UE de volta à agenda política da Islândia muito antes do esperado. As preocupações da Islândia com a segurança são reais: o país é um dos poucos no mundo sem um exército permanente, já que tradicionalmente se baseou em sua participação na OTAN e no pacto de defesa de 1951 com os EUA. No entanto, com as crescentes ambições de Trump em relação ao Ártico, essas alianças de segurança estão agora sob pressão e são cada vez mais questionadas.
3️⃣ A geografia da votação refletiu uma divisão. Reykjavík e as áreas mais urbanas tenderam para o "sim", enquanto o voto "não" prevaleceu nas áreas mais rurais, onde as preocupações com a pesca e a agricultura são particularmente fortes. Muitos alertaram para um "momento Brexit": os riscos de desinformação, interferência estrangeira e inteligência artificial influenciando a campanha do referendo. Embora leve tempo para desenterrar qualquer evidência de interferência estrangeira, a campanha do "não", extremamente eficaz, e o resultado quase idêntico já conferem ao referendo da Islândia semelhanças impressionantes com a votação do Brexit.
4️⃣ Para a UE, embora o Brexit devesse ter sido uma dura lição aprendida, Bruxelas mais uma vez manteve-se em grande parte à margem da votação sobre a Islândia, garantindo que a narrativa sobre uma possível adesão fosse dominada pela campanha do "não", que não hesitou em recorrer a alguma desinformação anti-UE. Isso incluiu alegações de que a reabertura das negociações daria automaticamente às frotas pesqueiras da UE acesso às águas islandesas (categoricamente falso) e que a adesão deixaria os islandeses expostos ao recrutamento forçado para um exército inexistente da UE.
5️⃣ O voto "não" significa que a Islândia manterá seus fortes laços econômicos com a UE por meio do EEE e do Espaço Schengen. Mas também significa abrir mão dos importantes benefícios que a adesão plena à UE poderia ter trazido. A maior oportunidade perdida foi a influência política. A Islândia já implementa uma parte substancial do acervo comunitário da UE através do EEE, mas não tem direito a voto na definição dessas regras. A adesão à UE teria dado a este pequeno país um assento à mesa de decisões e maior capacidade para defender os seus interesses quando as políticas da UE são negociadas. E, em áreas onde se aplica a unanimidade, como a Política Externa e de Segurança Comum, a Islândia poderia ter exercido um veto, o que daria aos Estados-Membros menores da UE muito mais influência do que teriam de outra forma.
6️⃣ Economicamente, a UE já é o maior parceiro comercial da Islândia, representando 53,6% do comércio total do país, e é o principal destino das exportações islandesas, absorvendo cerca de 66,5% do total. A adesão à UE teria significado a adesão à sua união aduaneira, o que poderia ter gerado benefícios mais amplos para o comércio e o investimento. A adoção do euro certamente poderia ajudar a estabilizar a volatilidade cambial, um problema recorrente para a economia islandesa. Em termos de segurança, a adesão à UE não teria substituído a NATO, mas poderia ter proporcionado uma base política e estratégica mais forte na Europa, à medida que as regiões do Atlântico Norte e do Ártico se tornam cada vez mais disputadas pelas grandes potências mundiais.
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