🇻🇪🇺🇲 A mudança de regime por decapitação na Venezuela

Por Marcus Paiva 
Jornalista 

⚠️ O nome pode soar estranho mas essa é a estratégia utilizada pela administração Trump na Venezuela. A remoção rápida da liderança central e a sua substituição por uma nova liderança colaboracionista sem colapsar o regime. A base disso é a Lógica da Continuidade por um títere. Por que as Grandes Potências Não Impõem o Líder Popular Após a Queda do Ditador? Por que Trump não destituiu todo o chavismo e deu a presidência a líder da oposição ? Quando um regime personalista entra em colapso, seja pela captura de seu líder, como ocorreu com Nicolás Maduro, seja por sua eliminação física, como ocorreu com Rafael Leónidas Trujillo em 1961, surge uma pergunta inevitável: por que o líder da oposição mais popular não é imediatamente imposto? Por que não María Corina Machado hoje, ou por que não o candidato com maior apoio popular na República Dominicana naquela época?
1️⃣ A resposta não é moral nem ideológica; é geopolítica e diz respeito à gestão de riscos. Na Venezuela, os Estados Unidos tinham a capacidade material de neutralizar Delcy Rodríguez ou de rejeitar qualquer continuidade do chavismo e forçar uma transferência direta do poder para a oposição. No entanto, não o fizeram. Pelo contrário, tolerou a permanência de Delcy Rodríguez, figura orgânica do regime, à frente do aparato estatal em caráter provisório. Isso não equivale a apoio político, mas sim a uma decisão estratégica clássica: preservar a continuidade administrativa, o controle das forças armadas, a cadeia de comando e uma estabilidade mínima enquanto se planeja uma transição. Maduro detinha o controle efetivo do Estado e das forças armadas e Delcy manteve esse controle.

2️⃣ A história dominicana oferece um espelho quase perfeito. Após o assassinato de Trujillo, os Estados Unidos poderiam ter destituído imediatamente Joaquín Balaguer, figura intimamente ligada ao regime de Trujillo, e imposto outro líder. Não o fizeram. Joaquín Balaguer permaneceu como presidente formal porque representava a continuidade institucional do regime sem Trujillo, permitindo que as tensões se dissipassem, prevenindo uma guerra civil e garantindo que o aparato estatal não entrasse em colapso. O líder popular da época não era Balaguer; esse líder era Juan Bosch, que gozava de legitimidade social e genuíno apoio democrático. Contudo, Bosch não foi imposto após a morte do ditador; Ele chegou ao poder mais tarde, por meio de eleições em 1962, quando o sistema era pelo menos minimamente estável. Mesmo assim, foi deposto no ano seguinte, demonstrando que as transições não são vencidas apenas pela legitimidade popular, mas sim pelo controle efetivo do poder real.

3️⃣ Esse padrão se repete: as grandes potências não priorizam o líder mais popular, mas sim aquele que minimiza o risco imediato. O líder popular representa a ruptura, o líder da continuidade representa a contenção. Em termos claros, a estabilidade precede a democracia, e não o contrário. Diferentemente da experiência do Iraque com os EUA administrando diretamente o país com o General Jay Garner (2003) e posteriormente com o diplomata Paul Bremer (2003-2004) o que gerou anos de instabilidade e resistência armada. Diferentemente da administração indireta implementando Hamid Karzai, um opositor, na presidência do Afeganistão após derrubarem o regime do Talibã em 2001. O resultado disso foram 20 anos de guerra civil e a retomada do país pelo Talibã.

4️⃣ É por isso que Delcy, assim como Balaguer, não representa o futuro desejado, mas sim uma solução paliativa temporária. E Corinna, assim como Bosch, representa a legitimidade democrática, mas também um desafio ao aparato ainda vigente. A verdadeira transição começa mais tarde, não no exato momento do colapso do regime. A lição histórica é incômoda, mas clara: as transições negociadas quase nunca começam com plena justiça ou com o líder mais legítimo, mas sim com o mal menor que garanta que o Estado não entre em colapso. O risco está em não reconhecer essa lógica. O risco reside em confundir a fase de contenção com o resultado final. Essa é uma fase de contenção, para que a estrutura chavista das forças armadas, reforçada em 2002 depois do Golpe de Estado que Chavez sofreu, não inicie uma guerra civil. Trump quer o petróleo venezuelano e para a sua extração plena pelas empresas estadunideses é necessário estabilidade.

5️⃣ Delcy não comanda de fato a Venezuela. O presidente dos Estados Unidos foi claro ao dizer que "se Delcy não fizesse o correto, pagaria um preço mais caro do que Maduro pagou". Rapidamente Delcy mudou o tom que antes apontava para algum tipo de resistência, para um tom de colaboração oferecendo cooperação com os Estados Unidos e anistia total aos presos políticos desde 1999. Após a queda de Maduro, o quarteto remanescente: Delcy e Jorge Rodríguez, Cabello e General Padrino, continuam a controlar a situação na Venezuela, mas a estabilidade depende de eles superarem anos de lutas pessoais. 

6️⃣ Considerada uma das figuras de maior confiança de Maduro, Delcy Rodríguez (juntamente com seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da assembleia Nacional) controla a maior parte do braço civil do governo venezuelano (as instituições, o órgão eleitoral) e seu braço econômico (contratos de petróleo). As lutas internas pelo poder dentro do governo, entre todas essas figuras, podem ter contribuído, em última análise, para a queda de Maduro. Algum deles entrou a localização exata de Maduro para que ele fosse capturado facilmente. A falta de repressão, a tolerância demonstrada em relação a ações específicas de Corina Machado durante a campanha de 2024 e os acordos com os Estados Unidos em uma suposta reunião em Doha, podem ter desempenhado um papel importante na abdução de Maduro do dia 3 de janeiro.

7️⃣ O rival político dos irmãos Rodríguez é Diosdado Cabello, braço direito de Hugo Chávez, que foi presidente interino em 2002 e que comanda o aparato de segurança e de inteligência do país. Cabello era muito mais próximo de Chávez do que de Maduro. Por um lado, Cabello tolerava a permanência de Maduro no poder por medo da presidência cair nas mãos da família Rodríguez. Por outro lado, a família Rodríguez ainda não consegue ficar sem ele, sob o risco de todo o regime ruir ou implodir. Cabello é o chefe do SEBIN (o serviço de inteligência e polícia política chavista). Ele também controla a contraespionagem militar e é a figura mais intransigente entre os líderes chavistas. Quanto ao general Padrino Lopes, ele ficou politicamente isolado porque o exército praticamente não interveio nas primeiras horas de 3 de janeiro. A maioria dos que resistiram diretamente ao ataque da Força Delta eram membros da Guarda Nacional de Maduro, composta por militares cubanos. 32 cubanos foram mortos na ação. 

8️⃣ Retirar o chavismo e substituir pela oposição geraria uma resistência muito dura das forças armadas, o que levaria a um caos, e isso não é bom para os negócios. Trump quer estabilidade para colocar na Venezuela as empresas petrolíferas estadunidenses. Ele quer alguém que tenha controle e a lealdade das forças armadas. Isso é uma mudança de regime com uma aparência de continuidade. Trump prefere normalizar a continuidade de um "chavismo submisso" com Delcy no comando. Isso dá margem para que Delcy permaneça temporariamente no poder para estabilizar o país e, em seguida, Trump pode forçar uma transição relativamente ordenada para um governo eleito mais complacente com os EUA e com as bênçãos do general Padrino Lopes.

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