Eleições presidenciais na Bolívia terão segundo turno entre candidatos da Direita
Por Marcus Paiva
Jornalista e Editor-Chefe
⚠️ A eleição presidencial da Bolívia será realizada em segundo turno pela primeira vez, com dois candidatos de direita competindo pela presidência, marcando o fim de quase 20 anos de domínio do partido de esquerda Movimiento al Socialismo (Mas). O candidato mais votado, no entanto, acabou surpreendendo: o senador de centro-direita Rodrigo Paz Pereira, do partido Democrata Cristão, que havia iniciado a campanha com apenas 3% de apoio nas pesquisas de opinião ficou com 32,05% dos votos. Em segundo lugar, com 26,72% dos votos, ficou Jorge “Tuto” Quiroga, da coligação Liberdade e Democracia. Quiroga é ex-presidente, de direita, que liderou o país de 2001 a 2002 como presidente interino após a renúncia do ex-presidente General Hugo Banzer. “Quero agradecer a todos os homens e mulheres que tornaram isso possível e deram voz àqueles que não tínhamos, que não aparecíamos nas urnas, que não existíamos”, disse Paz Pereira, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, que governou de 1989 a 1993.
🌐 Desde 2009, a Bolívia é constitucionalmente um “Estado Plurinacional” que reconhece as autonomias e as “diversas formas de organização política e jurídica” dos povos que a compõem e nos quais se encontram seus nove departamentos e os “territórios indígenas”. O sistema de governo é o presidencialismo. O presidente é o chefe de Estado e de governo, eleito por voto popular, juntamente com o vice-presidente, para um mandato de cinco anos, com direito à reeleição uma vez. Para ser eleito no primeiro turno, um candidato presidencial deve obter 50%+1 dos votos, ou exceder 40%+1 em dez pontos percentuais sobre seu rival mais próximo. Caso nenhum candidato alcance esse número, é realizado um segundo turno entre os dois candidatos mais votados.
🏛 A Assembleia Legislativa Plurinacional é bicameral. A Câmara dos Deputados é composta por 130 cadeiras, eleitas por um sistema uninominal-proporcional misto. 63 cadeiras são eleitas em 63 círculos eleitorais uninominais, cada uma delas representada por um representante. Outros 60 deputados são eleitos por representação proporcional, usando a chapa presidencial do partido e os nove departamentos bolivianos como distritos eleitorais, subtraindo também os assentos uninominais conquistados pelo partido para uma representação equilibrada. Outros sete representantes são eleitos em distritos eleitorais indígenas especiais. Não há urnas: cada comunidade define o método de acordo com seus "usos e costumes", que vão desde assembleias até levantamento de mãos. O único requisito é que o candidato "pertença àquela comunidade e goze de sua aceitação". O Senado, com 36 cadeiras, por outro lado, é uma câmara de representação territorial. Cada um dos nove departamentos da Bolívia tem quatro senadores eleitos por representação proporcional. Assim como para os deputados, o voto da chapa presidencial é usado como base.
1️⃣ Paz Pereira, senador por Tarija, agradeceu efusivamente ao seu companheiro de chapa, o ex-capitão da polícia Edman Lara Montaño, que se tornou conhecido por expor a corrupção policial e que foi um atrativo decisivo para os eleitores (discurso Anticorrupção). “Vamos combater a corrupção de frente, caramba!”, gritou Paz Pereira para jornalistas e dezenas de apoiadores que aguardavam seu discurso na noite de domingo em La Paz. O tribunal eleitoral enfatizou que os números são "preliminares e não definitivos". Isso porque a Bolívia utiliza duas apurações: uma mais rápida, baseada em fotos de cada cédula enviadas a um centro de processamento de dados, e a mais lenta, definitiva, em que cada voto é contado publicamente e examinado nas seções eleitorais antes de entrar no sistema. O tribunal tem até sete dias para divulgar os resultados oficiais.
2️⃣ Como nenhum dos dois obteve mais de 50% dos votos, ou pelo menos 40%, com uma vantagem de 10 pontos sobre o segundo colocado, um segundo turno será realizado em 19 de outubro. Assim como no primeiro turno, espera-se que o segundo turno seja dominado pela crise econômica, a pior em quatro décadas, com escassez de dólares e combustível e inflação crescente. Luis Arce, o impopular presidente da República, do partido MAS, optou por não buscar a reeleição e, em vez disso, apresentou seu ministro do Interior, Eduardo del Castillo, de 36 anos, que obteve apenas 3,16% dos votos. Essa foi a pior derrota da esquerda na Bolívia nos últimos 30 anos. É uma parcela insignificante em comparação com os mais de 50% que garantiram vitórias no primeiro turno para Arce e o ex-presidente Evo Morales no passado, mas o suficiente para que o partido não perca seu status legal, já que o limite é de 3%.
3️⃣ A Guinada para a direita é parte de uma "virada à direita" mais ampla na América do Sul, após as vitórias de Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador e da reeleição de Bukele em El Salvador. Esse resultado foi a continuação de um padrão bem estabelecido no qual os eleitores bolivianos oscilavam da esquerda para a direita, e vice-versa, aproximadamente a cada 20 anos. Aconteceu o mesmo com a primeira vitória de Morales em 2005, quando a direita governava há muito tempo e a população também estava cansada das instituições políticas do país. De acordo com a contagem preliminar, 19,4% dos votos foram nulos e inválidos, muito acima da média histórica nas eleições bolivianas, que normalmente fica abaixo de 5%. O primeiro líder indígena da Bolívia, o ex-presidente Evo Morales, passou as últimas semanas pedindo a seus apoiadores que votassem nulo em protesto contra as decisões do tribunal constitucional que o impediu de concorrer a um quarto mandato.
4️⃣ O magnata e empresário de centro-direita Samuel Doria Medina, que liderou as pesquisas durante grande parte da campanha, terminou em terceiro lugar, com 19,9% dos votos. Doria Medina reconheceu sua derrota e anunciou que apoiaria Paz Pereira no segundo turno. A batalha da campanha nas últimas semanas se concentrou entre Quiroga, Doria Medina e a esquerda, deixando o senador Paz Pereira de fora da principal linha de ataques, ou mesmo de campanhas de fakenews. Além disso, pesquisas indicaram que ainda havia um grande número de eleitores indecisos antes do dia da eleição. O candidato de esquerda mais bem colocado foi o senador Andrónico Rodríguez, que deixou o Mas para concorrer com uma pequena coalizão. Tendo chegado a ocupar o terceiro lugar nas pesquisas, ele acabou ficando em quarto lugar, com pouco mais de 8%.
5️⃣ Mais de 2.500 observadores nacionais e internacionais, de órgãos como a União Europeia e a Organização dos Estados Americanos, acompanharam a votação e devem publicar seus relatórios preliminares nos próximos dias. Durante o dia, eles afirmaram que a votação ocorreu normalmente. Segundo o tribunal eleitoral, a eleição ocorreu sem problemas, exceto por alguns “incidentes isolados”. Um deles envolveu Rodríguez. Ao votar em Entre Ríos, um reduto de Morales a cerca de 80 quilômetros de onde o ex-presidente permanece entrincheirado, o jovem senador foi vaiado e apedrejado pelo que ele descreveu como "um pequeno grupo de extremistas identificados como apoiadores de Morales". Rodríguez teve que ser escoltado por um membro das Forças Armadas para votar. Ele não se feriu. Antes visto como o herdeiro natural de Morales devido às suas raízes indígenas e à liderança no sindicato dos cocaleiros, o senador foi chamado de traidor por se afastar de Morales e lançar sua própria candidatura.
6️⃣ Procurado e com um mandado de prisão desde outubro de 2024 por supostamente ter um filho com uma garota de 15 anos, Morales votou em Villa 14 de Septiembre, a cerca de 40 quilômetros da pequena vila onde centenas de plantadores de coca impediram a polícia e o exército de deter o ex-presidente. Morales nega ter cometido qualquer crime e alega que o caso faz parte de um plano do atual governo para destruí-lo politicamente. O presidente Arce, que foi ministro das Finanças de Morales antes de se tornar seu principal rival, votou em La Paz e disse que garantiria “uma transição absolutamente democrática” em novembro, quando o próximo presidente tomar posse.
‼️ Lembrando que Evo Morales foi derrubado por um Golpe Militar em 2019 quando foi eleito para seu quarto mandato. Morales escolheu seu ex-ministro da economia Luis Arce para ser o candidato do seu partido, o MAS para a eleição presidencial de 2020. Arce venceu com 55% dos votos. A tensão começou logo na posse de Arce, quando ele não mencionou Morales em seu discurso, sinalizando um distanciamento. Morales, que esperava manter influência no governo, passou a pressionar Arce, enquanto este buscava consolidar sua própria liderança, dando origem ao "arcismo", uma facção oposta ao "evismo", era o início da ruptura na esquerda boliviana. O conflito escalou quando Morales anunciou, em 2023, sua intenção de concorrer à presidência em 2025, desafiando Arce.
❗️ Em resposta, aliados de Arce no Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP) declararam Morales inelegível, alegando que a Constituição permite apenas dois mandatos (Morales já havia cumprido três). Essa decisão foi vista como uma manobra política de Arce para neutralizar Morales.
No congresso do MAS em outubro de 2023, aliados de Morales expulsaram Arce do partido e o declararam candidato para 2025, mas a corte eleitoral anulou essas decisões, exigindo uma nova convenção. Morales acusou Arce de conspirar contra ele. Em junho de 2024, Arce escapa de uma tentativa de golpe militar liderada pelo general Juan José Zúñiga. Morales sugeriu que Arce encenou o evento para ganhar popularidade, enquanto Arce negou veementemente. Apoiadores de Morales, especialmente cocaleiros, organizaram bloqueios de estradas em 2024, causando desabastecimento e prejuízos econômicos, como protesto contra a inelegibilidade de Morales e a gestão de Arce.
🛑 Arce acusou Morales de liderar um "acoso político e econômico" contra seu governo, aliando-se a opositores como Carlos Mesa e Fernando Camacho, e questionou a origem dos recursos para as mobilizações de Morales. A disputa ganhou tons pessoais com a reabertura de uma denúncia contra Morales por e#t*pr* e tráf*c* de pessoas, envolvendo uma menor durante sua presidência. Morales negou as acusações, chamando-as de "teatro" orquestrado por Arce.
Morales, por sua vez, acusou Arce de seguir um "libreto da CIA" e de tentar assassiná-lo, enquanto o governo o acusou de disparar contra policiais durante um incidente em Cochabamba. A ruptura fragmentou o MAS em três facções: uma liderada por Morales, outra por Arce e uma terceira por Andrónico Rodríguez, o jovem senador que já foi aliado de Morales, mas se distanciou. Essa divisão enfraqueceu a esquerda boliviana, contribuindo para a ascensão da direita nas eleições de 2025, com um segundo turno entre candidatos de direita (Rodrigo Paz e Jorge Quiroga). Morales, impedido de concorrer, convocou o voto nulo como protesto, enquanto Arce viu sua popularidade cair, com desaprovação de 50% devido à crise econômica (inflação de 16,2%, falta de divisas e desabastecimento.
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