🇮🇶 Nouri al-Maliki pode ser eleito pela terceira vez como primeiro-ministro do Iraque


Por Marcus Paiva 
Jornalista 

⚠️ Duas semanas atrás, o primeiro-ministro iraquiano em exercício, Mohammed Shia al-Sudani, anunciou sua desistência da corrida pela chefia do governo. Em meio às negociações políticas após as eleições de novembro, essa decisão abriu caminho para o retorno do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki ao poder. Isso não é apenas um ato de reciclagem política; reflete o fracasso da reconstrução do Estado iraquiano após a invasão dos Estados Unidos em 2003. Sob o governo de al-Maliki (2006 a 2014), o Iraque pode muito bem retornar às políticas desastrosas que, em 2014, levaram à ascensão do Estado Islâmico (ISIS). Nouri al-Maliki favoreceu fortemente os xiitas durante seus dois mandatos como Primeiro-Ministro, implementando políticas profundamente sectárias colocando em risco o acordo de partilha Muhasasah.

‼️ Após a invasão do Iraque liderada pelos Estados Unidos em 2003 e a queda do regime de Saddam Hussein, os ocupantes estadunideses e a Autoridade Provisional da Coalizão implementaram um novo sistema de partilha de poder político baseado no sistema de partilha libanês. De acordo com o acordo de partilha de poder Muhasasah entre os principais partidos políticos que representam os principais grupos étnicos e religiosos do país: o cargo de Primeiro-Ministro é reservado para um xiita árabe (representando a maioria demográfica do país), o cargo de Presidente da República é reservado para um curdo e o cargo de Presidente do Parlamento é reservado para um sunita árabe. A constituição iraquiana de 2005 não menciona explicitamente o acordo Muhasasah, mas na prática, o sistema consolidou-se como uma convenção política onde os principais cargos governamentais são distribuídos com base em quotas étnico-religiosas.

1️⃣ Ao refletir sobre o que o retorno de al-Maliki poderia significar para o Iraque, é importante examinar seu histórico. Em 2006, quando foi indicado pela primeira vez para o cargo de primeiro-ministro, a administração George W. Bush, o apoiou. Washington o fez em nome da estabilidade e da confiança, apesar dos sinais de alerta iniciais. Em novembro de 2006, apenas seis meses após a ascensão de al-Maliki ao poder, o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Stephen Hadley, já expressava preocupação com sua capacidade de conter a violência contra a população sunita. A decisão do governo Bush de manter o apoio ao primeiro-ministro reflete seu próprio histórico de políticas equivocadas, motivadas pela ignorância da região e de sua história. 

2️⃣ Ao apoiar al-Maliki, Washington abriu caminho para o caos e a instabilidade que buscava evitar. Durante seus dois primeiros mandatos, al-Maliki estabeleceu um modelo de governo que desmantelou deliberadamente a visão de política inclusiva do acordo pós-2003. Ele implementou políticas de exclusão deliberada da população sunita nos âmbitos político e social, sob o pretexto de desbaathificação. Embora originalmente concebido para remover os lealistas de Saddam Hussein, o processo foi instrumentalizado por al-Maliki como uma ferramenta sectária. Em 2010, por exemplo, o primeiro-ministro utilizou uma lei de desbaathificação para proibir nove partidos e mais de 450 candidatos, predominantemente sunitas, das eleições parlamentares.

3️⃣ O aparato de segurança sob sua liderança também realizou prisões de políticos sunitas moderados sob falsas acusações de "terrorismo" e reprimiu manifestações pacíficas. O massacre de 2013 na cidade de al-Hawija, na província de Kirkuk, é um exemplo disso. Em janeiro daquele ano, dezenas de sunitas se reuniram para um protesto pacífico contra as políticas discriminatórias do governo de al-Maliki, que durou semanas. Três meses depois, as forças de segurança atacaram o acampamento de protesto,  matando pelo menos 44 manifestantes. Sob o governo de al-Maliki, Bagdá também testemunhou o deslocamento deliberado de sunitas de suas casas e a consolidação de áreas dominadas por xiitas. Isso representou uma forma de engenharia demográfica com o total apoio e cumplicidade do Estado.

4️⃣ Como resultado dessas políticas, a política sectária se intensificou a tal ponto que a identidade étnica e religiosa se tornou o principal fator de divisão da sociedade, minando a unidade nacional e mergulhando o país em conflito civil. Os constantes ataques às comunidades sunitas geraram um descontentamento generalizado, que foi facilmente explorado por organizações extremistas, primeiro a Al-Qaeda e depois o Estado Islâmico (ISIS). Al-Maliki não passou os últimos 11 anos em isolamento político. Pelo contrário, esteve no centro da máquina política, tramando e organizando todos os componentes necessários para seu retorno definitivo sob o olhar atento de sucessivas administrações americanas.

5️⃣ Um terceiro mandato para ele provavelmente aprofundaria as divisões sectárias e consolidaria a corrupção. A governança iraquiana continuará sendo minada por sua tendência a criar estruturas de poder paralelas, nas quais os lealistas são fortalecidos em detrimento das instituições. O retorno de Al-Maliki também seria significativo regionalmente. Após a queda do regime de Bashar al-Assad na Síria e o grave enfraquecimento do Hezbollah, o Iraque tornou-se o ativo financeiro e de segurança mais importante do Irã na região. A posição do Irã na região não era tão vulnerável há décadas, mas o retorno de al-Maliki impediria efetivamente o Iraque de trilhar um caminho mais independente de Teerã em seus assuntos internos e externos.

6️⃣ Um terceiro mandato também dificultaria a normalização das relações com Damasco. Al-Maliki se opôs veementemente ao diálogo com a nova liderança síria. No ano passado, ele manifestou sua oposição à participação do presidente interino Ahmed al-Sharaa na Cúpula da Liga Árabe em Bagdá e o descreveu como "procurado pelos tribunais iraquianos por acusações de terrorismo", visto que o atual presidente sírio já foi líder da Al-Qaeda da Síria. Em paralelo, um novo governo al-Maliki também representaria um desafio aos interesses dos EUA. A nomeação de Mark Savaya como enviado especial ao Iraque pela administração do presidente Donald Trump, a primeira nomeação desse tipo em 20 anos, demonstrou sua intenção de implementar políticas destinadas a conter a influência iraniana. Washington quer o desmantelamento das Forças de Mobilização Popular (FMP), pró-Irã, e sua completa integração ao exército iraquiano. Desmantelá-las significaria destruir sua própria criação e romper seus laços com o Irã.

7️⃣ A questão em jogo, no entanto, não é apenas quais políticas al-Maliki irá seguir. É também o fato de o Iraque não conseguir escapar de um ciclo político que só lhe trouxe catástrofes. Isso demonstra que a elite política iraquiana não aprendeu nada com a crise de 2014. A mobilização sectária e a política cleptocrática ainda são opções políticas válidas. A juventude iraquiana tem saído às ruas repetidamente para protestar contra esse status quo profundamente falho e disfuncional. Sem mudanças significativas na estrutura de incentivos, no sistema de responsabilização e na distribuição sectária de poder, o Iraque está fadado a repetir os mesmos erros graves do passado.

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