🇮🇳🇧🇩 Crise entre Índia e Bangladesh pelo corredor Siliguri

Por Marcus Paiva 
Jornalista 

⚠️ Desde 2025 Índia e Bangladesh estão em crise devido a mudanças no tabuleiro geopolítico da região. Bangladesh está construindo uma base aérea a apenas 20 km do corredor Siliguri, o ponto mais sensível da Índia. O primeiro-ministro de Bangladesh Muhammad Yunus fez algumas declarações em março de 2025, nos quais ele descreveu os estados do nordeste da Índia (as 7 irmãs) como "sem litoral" e chamou Bangladesh de "a única porta de entrada para o oceano na região", além de publicar um mapa reivindicando a região das 7 irmãs incluindo Siliguri. Para piorar a crise, Daca solicitou assistência da China para construir a base em Lalmonirhat, na divisão de Rangpur, que outrora abrigou um aeródromo da época da Segunda Guerra Mundial. Autoridades chinesas visitaram o local proposto, o que gerou tensão com o exército indiano e o envio de 75 caças indianos para as bases de Bagdogha e Hashimara, em Siliguri.

‼️ Daca tem sustentado que a declaração de Yunus sobre o nordeste da Índia tinha a intenção de ressaltar o potencial de conectividade regional. No entanto, devido à sensibilidade geopolítica da região, o comentário não foi bem recebido por Nova Déli. Bangladesh também possui dois corredores geoestratégicos sensíveis: O Corredor Norte de Bangladesh, com 80 km de extensão, que vai de Dakhin Dinajpur até as Colinas Garo do Sudoeste. Qualquer interrupção nesse trecho pode isolar completamente toda a divisão de Rangpur do restante de Bangladesh. E o Corredor de Chittagong, com 28 km de extensão, que vai do sul de Tripura até a Baía de Bengala. Esse corredor, menor que o Corredor Siliguri da Índia, é a única ligação entre a capital econômica e a capital política de Bangladesh.

1️⃣ Conhecido popularmente como "pescoço de Galinha", o Corredor de Siliguri é uma estreita faixa de 22 quilômetros que liga a Índia continental aos seus sete estados do nordeste, as chamadas sete irmãs. É uma faixa encaixada entre Nepal, Butão, Bangladesh e China, que permanece sendo um dos pontos geoestratégicos mais sensíveis da Índia. Se o corredor Siliguri for bloqueado todo o leste da Índia fica isolado. Ao norte do corredor Siliguri está o Vale de Chumbi, uma região estratégica em forma de cunha localizada no Tibet (controlado pela China), entre o Butão a leste e o estado indiano de Sikkim a oeste. Nessa região está Donglang, um planalto disputado entre China e Butão, que gerou uma crise em 2017 quando a Índia interveio em favor do reino do Butão. A China reivindica a área como parte do condado de Yadong no Tibet, enquanto o Butão a considera parte de seu território.

2️⃣ A relação entre a Índia e Bangladesh tem sido historicamente muito amigável. A Índia desempenhou um papel importante na independência de Bangladesh em 1971 em relação ao Paquistão e, desde então, os dois países mantêm laços muito estreitos. Bangladesh por muitas vezes ficando a sombra da influência indiana. Asituação mudou drasticamente após a "revolução da geração z" de 2024, a chamada Revolução de Julho que derrubou o governo de Sheikh Hasina, que na Índia era vista como aliada de Nova Déli, e o novo primeiro-ministro interino, o ganhador do Prêmio Nobel Muhammad Yunus, começou a se aproximar de Pequim e Islamabad, os dois rivais da Índia. Os planos detalhados de Yunus para a base aérea ainda não estão claros, mas a participação da China no projeto piorou muito a situação. Essa base poderia representar uma ameaça significativa para a Índia, particularmente para o setor leste, pois permitiria o rápido deslocamento de caças, aeronaves de vigilância e drones, além de auxiliar no monitoramento dos movimentos militares indianos no Nordeste, em Sikkim e em Bengala Ocidental. 

3️⃣ Em um cenário de conflito, essa base poderia ser fundamental para interromper as linhas de suprimento da Índia, além de ameaçar a integridade territorial. Os laços de defesa entre Daca e Pequim têm se aprofundado sob o novo governo de Bangladesh. A China tem fornecido grandes quantidades de armas e ampliado a cooperação na construção de infraestrutura militar em Bangladesh. Em 2024, ambos os países realizaram um exercício militar conjunto histórico, o primeiro desse tipo, reiterando seus estreitos laços de defesa. Em outubro de 2024, a Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN) enviou seus navios de guerra Qi Jiguang e Jing Gangshan ao porto de Chittagong para uma visita de cortesia. Isso simbolizou a manutenção das relações de defesa, independentemente da mudança de poder em Daca.

4️⃣ O novo governo interino também manifestou a vontade de consolidar ainda mais a sua cooperação em matéria de defesa e segurança com a China. Essa crescente cooperação em defesa entre Bangladesh e China tem diversas implicações estratégicas para a Índia, especialmente no contexto da dinâmica de poder regional no Sul da Ásia. A presença cada vez maior da China em Bangladesh, militar, econômica e infraestrutural, se encaixa na estratégia mais ampla de Pequim de cercar a Índia por meio de parcerias estratégicas. Embora o fortalecimento militar de Bangladesh não seja diretamente hostil à Índia, ele altera o equilíbrio militar regional e obriga a Índia a monitorar mais de perto sua fronteira oriental. A presença naval chinesa através dos portos de Bangladesh (potencial uso futuro de Payra ou Chittagong) pode complicar a segurança marítima da Índia, particularmente na Baía de Bengala, uma área crítica para a política indiana de "Ação para o Leste" e para a segurança energética.

5️⃣ Em resposta, as forças armadas indianas reforçaram sua fronteira leste, estabelecendo três guarnições totalmente operacionais em pontos estratégicos ao redor do Corredor de Siliguri, próximo à fronteira entre Índia e Bangladesh. O aumento da presença militar indiana perto de Bangladesh ocorre em um momento de deterioração das relações entre os dois. Durante seus 15 anos de governo, Hasina garantiu relações relativamente estáveis ​​entre Bangladesh e Índia. O governo interino em Daca, estabelecido após a fuga de Hasina para a Índia, já não demonstra a mesma cordialidade com Nova Déli. Juntamente com os relatos de novas guarnições, a Força Aérea da Índia também realizou uma de suas maiores demonstrações de poder aéreo de todos os tempos no estado de Assam, no nordeste do país, em 9 de novembro de 2025. Isso ocorreu antes de sete dias de exercícios aéreos em larga escala em todo o nordeste da Índia, que se estenderam até 20 de novembro.

6️⃣ Tudo isso coincidiu com a visita do chefe da Marinha do Paquistão a Daca e com a ancoragem de um navio de guerra paquistanês na costa de Bangladesh pela primeira vez desde a guerra de independência de 1971. A Índia tem sinalizado consistentemente, por meio de exercícios militares, que está ciente dos desafios que enfrenta na região. Durante seus 15 anos de mandato, Hasina ajudou a desmantelar redes insurgentes anti-Índia, conteve a militância e impulsionou projetos de conectividade, incluindo a permissão de acesso da Índia à Baía de Bengala, ao mesmo tempo que reforçou a segurança ao longo da fronteira de 4.000 quilômetros.

7️⃣ No entanto, a desconfiança persistia. A Lei de Emenda à Cidadania (CAA) de 2019 da Índia, que permitiu um processo de cidadania simplificado para hindus, sikhs, budistas e minorias religiosas cristãs do Afeganistão, Bangladesh e Paquistão, não foi bem recebida pela população de maioria muçulmana de Bangladesh. A retórica na Índia, que rotulava os migrantes de língua bengali como "infiltrados bengaleses", também aprofundou a hostilidade. Após a queda de Hasina, esse sentimento anti-Índia veio à tona, exacerbado pela fuga da ex-primeira-ministra para a Índia. O refúgio contínuo de Hasina na Índia aprofundou a desconfiança existente. Em 12 de novembro de 2025, Daca convocou o enviado indiano para expressar preocupação com as aparições de Hasina na mídia. Ela enfrenta um julgamento à revelia por crimes contra a humanidade ligados à repressão mortal contra manifestantes antigoverno no ano passado, com veredicto previsto para 17 de novembro.

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