Partido de centro-direita de Péter Magyar vence as eleições parlamentares e tira Viktor Orbán do poder na Hungria
Por Marcus Paiva
Jornalista
⚠️ O partido de oposição húngaro Tisza, de centro-direita, liderado pelo advogado Péter Magyar, venceu as eleições parlamentares, pondo fim a 16 anos de domínio de Viktor Orbán no poder, um resultado que remodelará a relação do país com a União Europeia e com a Rússia. Viktor Orbán foi primeiro-ministro em duas ocasiões: de 1998 a 2002 e de 2010 a 2026, totalizando 16 anos na chefia do governo da Hungria. Menos de três horas após o encerramento das urnas no domingo, Orbán reconheceu a derrota após o que descreveu como um resultado eleitoral "doloroso, mas inequívoco". Com 98,93% dos votos apurados, o partido Tisza, conquistou 138 das 199 cadeiras no parlamento do país, o que lhe confere uma supermaioria capaz de emendar a constituição e aprovar leis importantes.
1️⃣ Isso sugere que o partido de Magyar poderá reverter algumas das mudanças implementadas por Orbán e pelo Fidesz, e potencialmente desbloquear fundos da União Europeia. O partido de Orbán, o Fidesz obteve apenas 55 cadeiras no parlamento. O outro partido de extrema-direita Mi Hazánk conquistou apenas 6 cadeiras. Magyar, que prometeu reparar a relação tensa da Hungria com a UE, combater a corrupção e direcionar fundos para serviços públicos há muito negligenciados, disse que os eleitores de Tisza reescreveram a história húngara. A eleição estava sendo acompanhada de perto em todo o mundo como um teste da resiliência do movimento MAGA e da extrema-direita global, muitos dos quais há muito tempo consideram Orbán uma inspiração e procuram seguir sua estratégia.
2️⃣ Dias antes da eleição, JD Vance viajou para Budapeste, afirmando que sua visita tinha como objetivo "ajudar" Orbán. Donald Trump também havia declarado apoio a Orbán repetidamente, mais recentemente na sexta-feira, quando prometeu trazer o "poder econômico" dos EUA para o país caso Orbán fosse reeleito. O democrata estadunidense Hakeem Jeffries, líder da minoria na Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que os resultados da eleição húngara não são um bom presságio para o governo Trump. "O autoritário de extrema-direita Viktor Orbán perdeu a eleição", escreveu ele nas redes sociais. "Os bajuladores de Trump e os extremistas do MAGA no Congresso serão os próximos em novembro. O inverno está chegando."
3️⃣ Nas últimas semanas, a relação antagônica entre o governo de Orbán e a UE atingiu novos patamares de tensão, após Orbán vetar novas sanções da UE contra a Rússia, bem como um empréstimo adicional de € 90 bilhões para a Ucrânia. As tensões entre Budapeste e Bruxelas chegaram ao auge, após alegações de que o governo de Orbán teria compartilhado informações confidenciais da UE com Moscou. A notícia da mudança de governo provocou uma onda de reações em toda a UE. "O coração da Europa bate mais forte na Hungria esta noite", disse Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. "Um país retoma o seu caminho europeu. A União se fortalece."
Donald Tusk, primeiro-ministro da Polônia, deu as boas-vindas aos húngaros com uma alfinetada em Orbán. "De volta à união! Vitória gloriosa, queridos amigos!", publicou nas redes sociais, acrescentando em húngaro: "Russos, voltem para casa!".
4️⃣ Da Ucrânia, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que o país está pronto para avançar na cooperação com a Hungria, mesmo que Magyar tenha declarado que manterá a oposição ao envio de armas para o país e à entrada acelerada de Kiev na UE. Qualquer mudança será muito lenta. O governo populista de extrema-direita de Orbán aproveitou o tempo no poder para minar gradualmente os mecanismos de controle e equilíbrio que limitavam seu poder: reescrevendo as leis eleitorais em seu próprio benefício, manobrando para colocar aliados no controle de cerca de 80% da mídia do país e reformulando o sistema judiciário. Implementando o iliberalismo. Em 2025 enquanto o governo intensificava seus esforços para reprimir a dissidência, a resistência local cresceu, vindo à tona quando centenas de milhares de pessoas foram às ruas de Budapeste em junho, desafiando as tentativas do governo de proibir a Parada do Orgulho LGBTQIA+.
5️⃣ As eleições de domingo registraram uma participação recorde de quase 80%, segundo o Escritório Nacional Eleitoral. O resultado provavelmente se deveu, em parte, ao grande número de jovens que se mobilizaram contra Orbán. Uma pesquisa indicou que até 65% dos eleitores com menos de 30 anos, muitos dos quais atingiram a maioridade enquanto o país despencava nos rankings de liberdade de imprensa , era acusado de ser uma “autocracia eleitoral” e se tornava o país mais corrupto da UE, planejavam votar contra Orbán. Na noite de domingo, muitos deles se aglomeraram às margens do Danúbio, gritando "Conseguimos!", enquanto outros cantavam "Acabou!", ao passarem pelas estações de metrô da cidade.
6️⃣ Em termos realistas, a rejeição a Viktor Orbán baseia-se prioritariamente no fracasso econômico e na corrupção, já que a Hungria não teve crescimento real em quatro anos, ao contrário de vizinhos como Polônia e Romênia. Com a inflação reduzindo o poder de compra, mais de 40% dos húngaros terminam o mês sem dinheiro, tornando a economia o tema central, acima de pautas ideológicas ou internacionais. Orbán e seu ministro Szijjártó enfrentam acusações de traição devido a escândalos de coordenação direta com Moscou, incluindo vazamentos de informações sensíveis para a Rússia. Para desviar o foco de um balanço econômico catastrófico, marcado pelo IVA mais alto da UE (27%), investimentos industriais ineficientes e dependência energética russa, o governo apostou em uma campanha baseada no medo e em benefícios fiscais populistas para jovens e militares, financiados por gastos imensos que resultaram em um crescimento pífio de apenas 0,4% em 2025.
7️⃣ Uma das maneiras pelas quais Orbán buscou consolidar o poder foi adotando uma nova constituição em 2011 que classificou muitas áreas políticas como "leis cardinais" que exigem uma maioria de dois terços para serem alteradas. A oposição conseguiu uma super maioria qualificada crucial para reformas constitucionais fundamentais para reverter o regime iliberal de Orbán. O custo do regime iliberal é visível na degradação da saúde, educação e infraestrutura, além do bloqueio de 17 bilhões de euros pela UE devido ao desrespeito ao Estado de Direito. O sistema eleitoral misto, desenhado por Orbán para perpetuar seu poder através de mecanismos de compensação e distritos favoráveis, se voltou contra ele. O TISZA é um partido heterogêneo que une desde conservadores a eleitores de extrema-direita sob o lema "tudo menos Orbán". No entanto, Magyar compartilha visões conservadoras sobre imigração e segurança.
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