Os Emirados Árabes Unidos saem da OPEP
Por Marcus Paiva
Jornalista
⚠️ Os Emirados Árabes Unidos, um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo e membro da aliança da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) anunciaram a sua saída tanto da OPEP como da OPEP+ (ampliada). O Ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail Mohamed al-Mazrouei, informou a Reuters hoje cedo que o governo chegou a essa decisão após uma revisão abrangente das estratégias energéticas de longo prazo das potências regionais. Essa mudança sinaliza que o atrito de longa data com a Arábia Saudita sobre as cotas de produção evoluiu de uma divergência diplomática para uma questão estrutural.
1️⃣ O embate entre Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita (país que comanda de fato a OPEP) se tornou um obstáculo a qualquer cooperação energética significativa. Os dois países chegaram a se enfrentar indiretamente na guerra civil do Iêmen, quando os Emirados Árabes Unidos apoiaram o Conselho de Transição do Sul, que exercia a vice-presidência do governo do Iêmen do Sul, em uma tentativa de golpe de Estado contra a presidência, apoiada pela Arábia Saudita. Essa crise entre os dois Estados do Golfo escalou a níveis críticos até que o grupo apoiado pela Árabia Saudita retornou o controle da capital do Sul, Aden.
2️⃣ Ainda analisando as causas externas, a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP é mais uma rebelião política contra a Arábia Saudita do que uma medida econômica. Essa decisão não é meramente uma "escolha econômica" decorrente do desejo de aumentar a produção; pelo contrário, tornou-se a expressão de uma mudança existencial na política dos EAU. Os Emirados Árabes Unidos promovem a ideia de se retirar da OPEP como resposta a "falsas promessas" de solidariedade árabe. No entanto, a verdade é que a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP representa um "terremoto" que pode pôr fim à era da dominância saudita sobre as políticas energéticas regionais.
3️⃣ Já havia um desacordo histórico entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos no âmbito da OPEP+ que alterou as políticas de produção. Os Emirados Árabes Unidos decidiram resolver a divergência ignorando a consulta e a coordenação com o Riad. A Arábia Saudita precisa de preços elevados do petróleo (acima de US$ 80) para financiar seus projetos da Visão 2030, razão pela qual adere aos cortes de produção impostos pela OPEP. Em contrapartida, os Emirados Árabes Unidos possuem uma economia mais diversificada e alguns dos custos de produção mais baixos do mundo, o que os leva a preferir aumentar o volume de vendas, mesmo que os preços caiam ligeiramente, para garantir uma maior participação de mercado.
4️⃣ A relação entre Riad e Abu Dhabi transformou-se nos últimos anos, passando de uma aliança estreita para uma acirrada competição econômica. A saída da OPEP representa o fim oficial da dependência econômica das políticas de Riad e a adoção de um nacionalismo extremo que prioriza os interesses dos Emirados Árabes Unidos acima de qualquer consideração de solidariedade no Golfo. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) sofre de fragilidades institucionais que tornam as decisões reféns das relações pessoais entre os líderes. Com a crescente divergência de posições sobre o Irã e o Iêmen, o petróleo tornou-se a última arena de coordenação, e a saída dos Emirados Árabes Unidos provavelmente levará à fragmentação do Conselho em blocos rivais.
5️⃣ Os Emirados Árabes Unidos atuam como uma válvula de escape dentro da aliança, equilibrando a "indisciplina" da Rússia, que frequentemente envolve a produção acima de sua cota para financiar seus esforços de guerra. Sem os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita se verá sozinha para confrontar Moscou, o que pode levar Riad a lançar uma devastadora "guerra de preços" para restaurar a disciplina, como aconteceu em 2020. Os Emirados Árabes Unidos antes de se retirarem da OPEP, produziam cerca de 3,4 milhões de barris de petróleo por dia. Agora, ao se retirar da organização, aumentarão sua produção para 4,8 milhões de barris diários. Parte desse petróleo não depende do Estreito de Ormuz (bloqueado pelo Irã e pelos EUA) pois sai pelo oleoduto Habshan-Fujairah dos Emirados Árabes Unidos, que contorna o Estreito de Ormuz, e que tem uma capacidade de 1,5 milhão de barris por dia (expansível para 1,8 milhão de barris por dia). Ou seja, há uma dependência logística dos Emirados de Abu Dhabi e Dubai com o porto do Emirado de Fujairah. A estabilidade doméstica é mais fundamental do que nunca neste cenário.
6️⃣ Embora os EUA não sejam membros, eles dependem da estabilidade que a Opep (liderada pela Arábia Saudita) impõe ao mercado através de cotas de produção. A saída dos Emirados Árabes gera os seguintes problemas para Washington: Perda de Interlocutor Estável: Quando o mercado é controlado por um cartel, os EUA precisam negociar "apenas" com Riad para tentar estabilizar preços. Com a saída dos EAU (5ª maior reserva do mundo, 3ª maior da OPEP), o mercado se torna mais fragmentado e volátil. Inflação e Volatilidade: A desintegração do cartel pode levar a guerras de preços ou choques de oferta imprevisíveis. Em um ano de tensões globais, a incapacidade de prever o preço do barril dificulta o controle da inflação interna americana. Enfraquecimento de Alianças: A saída dos EAU sinaliza um alinhamento menor com as políticas de produção coordenadas, o que pode forçar os EUA a gastar mais capital diplomático para garantir que seus aliados no Golfo não inundem ou sequem o mercado de forma desordenada.
7️⃣ As causas internas partem do atrito entre o Emir de Sharjah e Abu Dhabi. O Emir de Sharjah é abertamente contra o alinhamento de Abu Dhabi com os EUA e Israel. Uma das consequências do conflito contra o Irã foi provar que os EUA não possuem capacidade de defender efetivamente o território dos EAU, reforçando ainda mais essa oposição a relações militares com Israel e EUA. Em um movimento recente, o Emir de Sharjah Sheikh Sultan bin Muhammad Al-Qasimi emitiu decretos criando uma autoridade judicial mais independente no emirado (fora de alguns aspectos federais), sinalizando oficialmente seu descontentamento com as políticas de Abu Dhabi. Oficialmente, o emir de Sharjah, faz discursos defendendo a unidade nacional dos EAU, porém, nos bastidores, ele vem aumentando a autonomia de seu Emirado, o que gerou rumores de ruptura e independência desse Emirado. A insatisfação do Emir de Sharjah fazendo pressão em Abu Dhabi transformou-se em uma crise doméstica contida pela estratégia de sair da OPEP e da sombra da Arábia Saudita, vista como muito alinhada com os EUA.
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