O Sistema de governo colegiado em mosaico do Irã está dividido entre Generais e Clérigos

Por Marcus Paiva 
Jornalista 

📢 Quando o aiatolá Ali Khamenei governava o Irã como líder supremo, ele detinha a última palavra sobre todas as decisões relativas à guerra, à paz e às negociações com os Estados Unidos. Seu filho e sucessor não desempenha o mesmo papel. Em vez disso, um grupo de comandantes experientes em combate do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e seus aliados são os principais tomadores de decisão em assuntos de segurança, guerra e diplomacia. Mojtaba está administrando o país como se fosse o diretor do conselho. Ele se baseia muito no conselho e na orientação dos membros do conselho, e eles tomam todas as decisões coletivamente. Os generais são os membros do conselho.
1️⃣ A única imagem do líder supremo Aiatolá Mojtaba Khamenei em circulação desde a nomeação é um retrato pré-fabricado. Nenhuma fotografia e nenhum vídeo, desde quando assumiu a chefia de Estado. Só um retrato e um título. De acordo com o Artigo 110 da Constituição iraniana, o Líder Supremo detém autoridade de comando exclusiva sobre todas as forças armadas. Ele nomeia e exonera todos os comandantes militares. Nenhuma outra instituição pode emitir ou revogar ordens militares. O corpo da guarda Revolucionária Islâmica, a milícia Basij, as forças armadas e o Hezbollah juraram lealdade a Mojtaba khamenei, mesmo sem ver e ouvir ele. Mojtaba Khamenei é agora um líder clausurado, que comanda nas sombras, assim como o Emir do Afeganistão Mullah Hibatullah Akhundzada. O Emir do Afeganistão governa do claustro, e desde 2021 não fez nenhuma foto, vídeo ou pronunciamento. Suas ordens e discursos são por escritos e lidos por terceiros. O líder supremo só precisa existir.

2️⃣ A tentativa de Trump de mudança de regime por decapitação no Irã, estratégia utilizada pela administração Trump na Venezuela, com remoção rápida da liderança central e a sua substituição por uma nova liderança colaboracionista sem colapsar o regime, falhou. Trump acreditava que poderia forçar uma tomada de poder por algum colaboracionista ou uma desestabilização eliminando o líder supremo, mas há dois erros nessa estratégia: Primeiramente, o Irã possui um sistema de governo colegiado em mosaico. Isso quer dizer que a autoridade não é concentrada no líder supremo mas é dispersa por células autônomas, que são colegiados com mais poder de fato do que o líder supremo. O regime é dos Aiatolás e não de um Aiatolá. 
3️⃣ Quem comanda de fato o Irã é um colegiado dividido em 3 câmaras altas: A Assembleia dos Peritos, que é corpo de 88 clérigos islâmicos (juristas) eleitos por voto popular para mandatos de 8 anos. Eles são responsáveis por eleger, supervisionar e destituir o Líder Supremo. O conselho dos Guardiães composto por 12 juristas que fazem um "controle de constitucionalidade não laico" das leis e aprovam candidatos nas eleições. E o conselho de Discernimento que é um órgão consultivo do líder supremo, que possui cerca de 45 membros. Além disso, desde o início de 2026, Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, morto em um ataque aéreo israelense, emergiu como o líder de fato do país, com mais poder do que o líder supremo. Larijani tinha o apoio do comando da guarda Revolucionária Islâmica, que é outro poder fundamental no país e que forma uma outro colegiado. 
4️⃣ Após a morte de Ali Khamenei, a guarda Revolucionária Islâmica emergiu como um grande poder político. Seu comando ressionou o conselho dos Guardiães para a escolha de Mojtaba Khamenei como o novo líder supremo, em uma espécie de Golpe de Estado pretoriano. No sistema de governo iraniano, a redundância substitui a hierarquia. Embora o líder supremo Mojtaba Khamenei tenha ficado gravemente ferido na perna, na mão e na face, ele está mentalmente lúcido e ainda chancela muitas decisões, mas não todas. Dois grupos políticos disputam poder no Irã: os principialistas (conservadores) e os reformistas. Porém, os principialistas linha-dura como os generais da Guarda Revolucionária Islâmica ganharam espaço político, simbolizado através dos comunicados televisionados do general Ebrahim Zolfaghari, porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica.

5️⃣ O presidente Trump afirmou que a guerra, juntamente com os assassinatos de vários líderes e membros do aparato de segurança do Irã, inaugurou uma “mudança de regime” e que os novos líderes são “muito mais razoáveis”. Na realidade, a república islâmica não foi derrubada e nem houve mudança de regime. O poder agora está nas mãos dos militares linha-dura entrincheirados, e a ampla influência dos clérigos está diminuindo. Mojtaba ainda não tem o comando ou controle total. Há, talvez, alguma deferência a ele. Ele assina os documentos ou faz parte da estrutura de tomada de decisões de forma formal. Mas, no momento, ele se depara com situações já decididas pelos generais ou pelo presidente da Assembleia Consultiva iraniana Mohammad-Bagher Ghalibaf.
6️⃣ O presidente da Assembleia Consultiva iraniana Mohammad Bagher Ghalibaf, ex-general da Guarda Revolucionária e principal negociador com os Estados Unidos no Paquistão, afirmou em um pronunciamento televisionado no sábado que a proposta estadunidense de um acordo nuclear e um plano de paz, bem como a resposta do Irã, foram compartilhadas com Mojtaba Khamenei e que suas opiniões foram levadas em consideração na tomada de decisões. A Guarda Revolucionária possui 3 generais tomadores de decisão: O comandante-em-chefe é o Brigadeiro-General Ahmad Vahidi. O General Mohammad Bagher Zolghadr, recém-nomeado chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, é um antigo comandante linha-dura da Guarda Revolucionária. O General Yahya Rahim Safavi, também comandante, atuou como principal conselheiro militar tanto de Mojtaba quanto de Ali Khamenei.

7️⃣ Mojtaba não é supremo; ele pode ser o líder nominalmente, mas não é supremo como seu pai era. Mojtaba é subserviente à Guarda Revolucionária porque deve sua posição e a sobrevivência do sistema a eles. Foi o comandante da guarda Revolucionária Islâmica que forçou a sua eleição. Esses generais consideram a guerra com os Estados Unidos e Israel uma ameaça à sobrevivência do regime e, após cinco semanas de intensos combates, estão confiantes de que conseguiram conter a ameaça. Em todos os momentos decisivos, eles assumiram a liderança na definição da estratégia e na alocação de recursos.
Eles desestabilizaram a economia global ao fechar o Estreito de Ormuz e usaram quaisquer ganhos na guerra como alavanca para superar rivais políticos internos.

8️⃣ O presidente eleito Pezeshkian e seu gabinete foram marginalizados e instruídos a se concentrarem apenas em assuntos internos, como garantir um fluxo constante de alimentos e combustível e assegurar o funcionamento do país. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, foi marginalizado nas negociações que liderava com os Estados Unidos antes da guerra. Ghalibaf, presidente da Assembleia Consultiva iraniana, assumiu a liderança do grupo moderado em seu lugar, mesmo Ghalibaf sendo um principialista, ele não representa a facção principialista mais radical, por isso ainda vê possibilidade de negociações. 

9️⃣ O comandante-em-chefe da Guarda Revolucionária Brigadeiro-General Ahmad Vahidi. O General Mohammad Bagher Zolghadr, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, e o conselheiro do líder supremo General Yahya Rahim Safavi, de um lado, e o presidente da Assembleia Consultiva iraniana Mohammad-Bagher Ghalibaf com o líder supremo Mojtaba Khamenei de outro, são os dois grupos que comandam de fato o Irã. É importante lembrar que os generais não são as únicas vozes à mesa. A política iraniana nunca foi monolítica, e o sistema é projetado para ter estruturas de poder paralelas. Pezeshkian e Araghchi também têm assentos no Conselho de Segurança Nacional. Mas sob a atual liderança coletiva, são os generais que prevalecem e, no momento, não há sinais de desordem entre eles. 



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