O frágil cessar-fogo entre Irã e EUA mediado pelo Paquistão pode ser rompido por Israel
Por Marcus Paiva
Jornalista
📣 Os Estados Unidos e o Irã chegaram a um terno inicial para o cessar-fogo temporário, com Israel declarando seu apoio ao acordo, mas mantendo seus ataques contra o sul do Líbano alegando estar atacando o Hezbollah, grupo paramilitar apoiado pelo Irã. O anúncio ocorreu pouco antes do final do prazo estabelecido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para que o Irã reabrisse o Estreito de Ormuz. O presidente havia ameaçado anteriormente bombardear o Irã escrevendo em sua rede social: "toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais ser recuperada", caso o Irã não chegasse a um acordo para abrir o Estreito de Ormuz na noite de terça-feira. O acordo foi negociado entre o vice-presidente estadunidense JD Vance e o presidente da Assembleia Consultiva iraniana Mohammad-Bagher Ghalibaf, com a mediação do governo do Paquistão.
⚠️ Tanto Washington quanto Teerã saudaram o cessar-fogo, negociado pelo Paquistão, como uma vitória. Entretanto, há um ponto de discórdia que pode impedir qualquer acordo de paz ser concluído. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirma que o cessar-fogo não se aplica às operações de Israel no Líbano. O Irã alegou que o Líbano faz parte do acordo de cessar-fogo e que se Israel não parar os ataques, o Irã vai continuar atacando Israel e os países aliados dos EUA na região. Os ataques israelenses no Líbano, incluindo o que Israel chamou de seus maiores ataques em Beirute desde o início da guerra, atraíram a condenação do Irã e críticas do Paquistão, mediador do conflito. Foram 100 alvos atingidos no Líbano em 10 minutos. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, cujo governo tem atuado como intermediário entre Washington e Teerã, denunciou as violações do acordo e instou "todas as partes a exercerem moderação e respeitarem o cessar-fogo de duas semanas, conforme acordado, para que a diplomacia possa assumir um papel de liderança rumo a uma solução pacífica do conflito".
❗️O Paquistão possibilitou o acordo de cessar-fogo ao se posicionar como um intermediário credível e confiável em um momento de grave escalada de uma guerra que estava arrastando toda a região. Dois níveis de negociação foram abertos: o primeiro entre o presidente da Assembleia Consultiva iraniana Mohammad-Bagher Ghalibaf, líder do grupo mais "moderado" do governo iraniano e o vice-presidente estadunidense JD Vance, mediada pelo líder de fato do Paquistão marechal de campo Asim Munir, Chefe do Estado-Maior do Exército. O segundo canal foi aberto entre o negociador de Trump, Steve Witkoff e o Ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi, mediada pelo primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif.
‼️O Paquistão ativou canais diplomáticos paralelos, transmitiu garantias tanto a Washington quanto a Teerã e ajudou a alinhar os interesses imediatos em torno da desescalada. O primeiro-ministro do Paquistão, Sharif, e o chefe do exército, marechal de campo Asim Munir, mantêm relações cordiais com Trump desde maio passado, quando Islamabad e Nova Déli se envolveram em uma breve, porém mortal, guerra. Trump mediou o conflito e se atribuiu o mérito de "ter encerrado" a guerra. O Paquistão também mantém relações complexas, embora amistosas, com o regime iraniano. A liderança paquistanesa aproveitou os canais de segurança e diplomáticos já estabelecidos com os Estados Unidos, mantendo ao mesmo tempo um diálogo funcional com o Irã, o que permitiu traduzir as amplas intenções em uma pausa viável.
1️⃣ A principal contribuição não foi a coerção, mas a coordenação, estruturar um primeiro passo mutuamente aceitável que reduziu os riscos e criou espaço para o diálogo. Islamabad buscará manter o ritmo nas negociações e consolidar um acordo mais duradouro entre os EUA e o Irã antes que essa janela de oportunidade se feche. Até mesmo chegar a um cessar-fogo é uma conquista notável para Islamabad, e seus líderes continuarão seu intenso engajamento com ambos os lados e parceiros-chave para fazer avançar as negociações e minimizar os riscos de ações que possam sabotá-las. Sábado será a primeira reunião entre o vice-presidente estadunidense JD Vance e o presidente da Assembleia Consultiva iraniana Mohammad-Bagher Ghalibaf, em Islamabad, capital do Paquistão. Nessa reunião também está presente o negociador de Trump Steve Witkoff.
2️⃣ O líder do Paquistão também estava trabalhando em um plano separado para um acordo entre o Irã e os países do Golfo para garantir que Teerã não ataque seus vizinhos no futuro. No entanto, há um entendimento em Riad sobre a relação custo-benefício. Unir-se à campanha contra o Irã seria mais destrutivo para os sauditas. Hoje, os ministros das Relações Exteriores do Irã Araghchi e da Arábia Saudita príncipe Faisal bin Farhan conversaram por telefone pela primeira vez desde o início da guerra. Mesmo que o Irã não cumpra seus compromissos, o Paquistão provavelmente ainda terá espaço para incentivar a moderação e facilitar a retomada do diálogo. Se as violações se tornarem persistentes, a influência do Paquistão naturalmente diminui, mas ele ainda pode servir como um dos poucos atores confiáveis capazes de reabrir a comunicação e evitar que o conflito se alastre para um nível mais amplo. Egito e Turquia tentaram mas falharam.
3️⃣ A China também teve um papel de destaque na negociação desse cessar-fogo pela sua boa relação com o Irã. Em um gesto de confiança, a China vetou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o Estreito de Ormuz, apesar da crise afetar a própria China. O ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, reuniu-se na terça-feira em Pequim com o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi. Ao final do encontro, eles divulgaram uma iniciativa conjunta de paz de 5 pontos que será apresentada na reunião se sábado em Islamabad: 1. Cessação imediata das hostilidades, com permissão para assistência humanitária em todas as áreas afetadas pela guerra. 2. O início das negociações de paz deve ocorrer o mais breve possível, sob o princípio de salvaguardar a independência e a segurança do Irã e dos Estados do Golfo. Todas as partes se comprometem a abster-se do uso ou da ameaça de uso da força durante as negociações de paz. 3. As partes em conflito cessarão imediatamente os ataques a infraestruturas importantes, incluindo instalações de energia, dessalinização e geração de energia, bem como infraestruturas nucleares pacíficas, como centrais nucleares. 4. As partes permitirão a passagem antecipada e segura de navios civis e comerciais e restabelecerão a passagem normal pelo Estreito o mais breve possível. 5. Conclusão de um acordo para o estabelecimento de um quadro de paz abrangente baseado nos princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional.
4️⃣ No dia 6 de abril, o Irã rejeitou os termos dos Estados Unidos para um cessar-fogo e respondeu com uma contraproposta. Trump continuou ameaçando com ataques contra usinas de energia e pontes iranianas. Autoridades israelenses indicaram que as Forças de Defesa de Israel (IDF) participariam dos ataques contra esses alvos. Trump já adiou duas vezes o prazo para o Irã chegar a um acordo, inclusive uma vez a pedido de autoridades iranianas, a fim de continuar as negociações e outra a pedido do Paquistão que está tentando mediar a crise. Para pressionar o Irã, os EUA enviaram bombardeiros B-2 para a região. Mediadores informaram a administração Trump que estavam trabalhando com o regime iraniano para emendar e reformular sua contraproposta, mas alertaram que a tomada de decisões por parte do Irã tem sido bastante lenta.
5️⃣ Os líderes iranianos não conseguem se comunicar de forma eficiente, provavelmente devido a preocupações com os alvos. Os Estados Unidos atacaram bunkers, depósitos de munição, uma estação de radar e outros alvos militares na Ilha de Kharg na terça-feira 7 de abril para forçar uma resposta diplomática mais rápida do Irã. Os Estados Unidos não atacaram docas de desembarque ou infraestrutura petrolífera. Os estadunidenses atacaram a Ilha de Kharg pela última vez em 13 de março. O Irã alegou ter atacado um navio no Golfo Pérsico. A UK Maritime Trade Operations informou, em 7 de abril, que um navio porta-contêineres foi atingido por um projétil desconhecido a 25 milhas náuticas ao sul da Ilha de Kish, no Irã.
6️⃣ O Irã tem realizado ataques esporádicos contra navios no Golfo para interromper o transporte marítimo internacional e aumentar sua influência. As Forças de Defesa de Israel (IDF) atacaram cerca de 10 ferrovias, rodovias e pontes em todo o Irã em 7 de abril, com o objetivo de interromper a capacidade do regime iraniano de transferir armas e lançadores de mísseis. Diversas ferrovias e rodovias no noroeste e centro do Irã foram atingidas. A mídia contrária ao regime observou que uma das pontes ferroviárias atingidas, na província de Zanjan, está localizada perto de um depósito de munições e mísseis.
7️⃣ No dia 6 de abril, o Irã apresentou sua resposta aos 15 pontos de Trump para a negociação com 10 pontos. Dez parágrafos entregues por meio de intermediários, no mesmo dia em que Israel bombardeava seu maior complexo petroquímico e assassinava seu chefe de inteligência, general Majid Khademi. Os Estados Unidos ofereceram um cessar-fogo de 45 dias. O Irã respondeu com um documento que um alto funcionário estadunidense chamou de “maximalista”. O funcionário disse que “não está claro se isso permitirá progresso em direção a uma solução diplomática”. O que foi confirmado, por meio da IRNA, da coletiva de imprensa do Ministério das Relações Exteriores e de vazamentos dos EUA para a CBS, é um conjunto de exigências que não se assemelham a uma aceitação de cessar-fogo. Elas se assemelham a uma lista de objetivos de guerra.
8️⃣ O Irã exige o fim permanente da guerra. Não uma pausa. Não 45 dias. Permanente. Exige um protocolo de trânsito seguro no Estreito de Ormuz, elaborado em seus termos, a reconstrução da infraestrutura destruída, o levantamento das sanções e a cessação dos conflitos regionais relacionados. Essas não são concessões a serem negociadas em troca de um cessar-fogo. Esses são os termos que o Irã acredita lhe serem devidos por uma guerra que não iniciou (e que realmente não iniciou). A estrutura da resposta revela tudo sobre a postura estratégica do Irã. Os Estados Unidos ofereceram um acordo temporário que adiava as questões mais difíceis para a Fase 2. O Irã respondeu com um documento que contém apenas a Fase 2. Não há Fase 1 na resposta iraniana. Não há pausa temporária, nem janela de 45 dias, nem reabertura adiada do Estreito de Ormuz.
9️⃣ O Irã ignorou o cessar-fogo e foi direto para a solução permanente, em termos que exigem que os Estados Unidos paguem pelos danos, suspendam as sanções e aceitem um protocolo de Ormuz redigido pelo Irã. A resposta não é uma rejeição às negociações. É uma redefinição do que significa negociar. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, disse que o Irã havia “preparado o conjunto de exigências com base em nossos próprios interesses” e anunciaria os detalhes “no momento apropriado”. Ele acrescentou que as negociações “não são de forma alguma compatíveis com ultimatos, crimes ou ameaças”. A palavra “crime” é intencional. Ela enquadra os ataques estadunidenses e israelenses como atos criminosos que exigem compensação, e não como operações militares que exigem cessação.
🔟 A linguagem utilizada transforma a negociação, de uma discussão sobre segurança, em uma reivindicação de reparações. A entidade que exige pagamento por danos é a mesma que cobra pedágios em yuan dos superpetroleiros da frota paralela que transitam pelo estreito que se recusa a reabrir. O Irã pede compensação pela guerra enquanto lucra com as consequências dela. A Casa Branca classificou o cessar-fogo de 45 dias como “uma entre muitas ideias” e confirmou que o presidente “ainda não o aprovou”. O prazo de terça-feira, estabelecido por Trump, permanece em vigor. Os mediadores disseram que as chances são “mínimas”. E os dez pontos do Irã exigem o fim permanente de uma guerra que o país que emite as exigências não demonstra qualquer intenção de encerrar em outros termos que não os seus.
1️⃣1️⃣ Dez exigências. Um prazo. A distância entre elas não é negociável em 30 horas. Pode ser que não seja negociável de forma alguma. E a resposta que o alto funcionário estadunidese chamou de “maximalista” foi escrita por um governo cujo setor petroquímico está 85% paralisado, cujo chefe de inteligência foi assassinado esta manhã e cujas cidades com mísseis funcionam com perclorato de sódio chinês, transportado por um porto em Zhuhai. O país que faz as exigências não está negociando a partir de uma posição de força. Está negociando com a convicção de que a alternativa ao maximalismo é a rendição, e a rendição é o único resultado que seu sistema não pode suportar.
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