O que a morte de Ali Larijani significa para a estrutura de poder do Irã ?
Por Marcus Paiva
Jornalista
🚩 As autoridades iranianas confirmaram a morte de Ali Larijani, Secretário do Conselho supremo de Segurança Nacional e líder de fato do Irã. Larijani foi morto junto do seu vice no Conselho supremo de Segurança Nacional, Alireza Bayat (pseudônimo: Ali Batani), que trabalhou por anos no Ministério da Inteligência. O filho de Larijani, Morteza Larijani, que também atuava como seu assessor especial, também foi morto. O chefe de seus guarda-costas, o general Vahid Fateminejad também morreu no bombardeio Israelense contra a capital Teerã. O ataque israelense teve como alvo um apartamento em Pardis Fase 2, em Teerã. Naquele momento, Larijani participava de uma importante reunião sobre como prevenir distúrbios durante as celebrações de Chaharshanbe Suri.
⚠️ Há três dias, Larijani publicou uma carta aberta ao mundo muçulmano, conclamando os governos islâmicos a decidirem de que lado da história estão. Ali Larijani foi general da Guarda Revolucionária Islâmica, Doutor em Filosofia que escreveu livros sobre Kant, estadista e líder de fato do Irã desde a morte do Líder supremo Aiatolah Ali Khamenei. Foi presidente do Parlamento do Irã de 2008 a 2020. Além disso, era membro do Conselho de Discernimento do Conveniência desde 2020, tendo servido anteriormente de 1997 a 2008 na mesma câmara alta. Candidatou-se à eleição presidencial de 2021 e 2024, mas acabou sendo desqualificado por atritos com os principialistas linha-dura. Anteriormente, concorreu em 2005 , mas terminou em sexto lugar. Larijani foi o principal negociador nuclear e, por décadas, atuou como um dos principais arquitetos da doutrina estratégica do Irã.
1️⃣ A morte de Larijani fez mais do que eliminar um comandante. Ela enfraqueceu a capacidade do regime de calibrar riscos. Radical em suas intenções, cauteloso na execução, ele impulsionava seus aliados sem provocar uma retaliação existencial. Larijani era o líder de fato do país, a cara do regime, visto que o novo líder supremo Aiatolah Mojtaba Khamenei se tornou um líder clausurado (que governa sem aparecer). Entretanto, a ausência de Larijani não cria um problema para o regime dos Aiatolás devido ao sistema de governo colegiado em mosaico. Quem comanda de fato o Irã é um colegiado dividido em 3 câmaras altas:
2️⃣ A Assembleia dos Peritos, que é corpo de 88 clérigos islâmicos (juristas) eleitos por voto popular para mandatos de 8 anos. Eles são responsáveis por eleger, supervisionar e destituir o Líder Supremo. O conselho dos Guardiães composto por 12 juristas que fazem um "controle de constitucionalidade não laico" das leis e aprovam candidatos nas eleições. E o conselho de Discernimento que é um órgão consultivo do líder supremo, que possui cerca de 45 membros. Além disso, desde o início de 2026, Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, emergiu como o líder de fato do país, com mais poder do que o líder supremo. Larijani tem o apoio do comando da guarda Revolucionária Islâmica, que é outro poder fundamental no país e que pressionou o conselho dos Guardiães para a escolha de Mojtaba Khamenei como o novo líder supremo. Nesse sistema, a redundância substitui a hierarquia.
3️⃣ Uma desestabilização militar com a eliminação de Ali Larijani não é possível devido a aplicação da doutrina mosaico. Os 31 comandos provinciais autônomos da Guarda Revolucionária Islâmica operam com base em ordens pré-delegadas de seu falecido líder supremo. Somente um Líder Supremo em exercício pode anular essas ordens. O Líder Supremo atual, Mojtaba Khamenei é um retrato na parede, um título, uma ordem, um líder clausurado. A Doutrina Mosaico foi concebida para sobreviver à decapitação. Ela foi ativada quando Ali Khamenei foi morto. Ela continua porque o sucessor é um líder clausurado, a máquina vai funcionar no "automático". A cada dia que Mojtaba permanece em silêncio, os 31 comandos operam cada vez mais em modo autônomo. A cada dia que o retrato substitui a pessoa, o mecanismo constitucional que poderia centralizar o comando permanece congelado. Ali Larijani terá um sucessor mas a engrenagem continua girando.
4️⃣ A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) não precisa de Mojtaba e de Larijani para comandar. Ela precisa que o líder supremo exista. A televisão estatal lhe deu um título que diz que ele existe, mas está ferido. Larijani se tornou mártir. Isso basta para a doutrina mosaico. Trump não conseguiu escolher um líder supremo títere, nem um colaboracionista tomou o poder. A mudança de regime tradicional ou por decapitação não é possível, pelo menos no cenário atual. A dificuldade notável de realizar uma façanha deste tamanho, além de depender de múltiplos fatores já citados, passa principalmente pela necessidade de gerar um descontentamento militar iraniano, o que levaria à perda de lealdade e confiança dos militares no Aiatolah e, consequentemente, a uma cisão interna no seio militar da República Islâmica. Como comandante-em-chefe, o Aiatolah Mojtaba Khamenei controla todas as forças armadas do Irã, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), a milícia Basij e o exército iraniano (Artesh). A IRGC e a Basij são especialmente leais ao líder supremo.
5️⃣ As Forças Armadas iranianas possuem uma arquitetura dupla, projetada para resistir a golpes e principalmente a invasões: Os Artesh, são as forças armadas regulares, contam com cerca de 420.000 homens, distribuídos entre forças terrestres, navais, aéreas e de defesa aérea, e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que é uma força militar de elite, ideologicamente orientada, conta com cerca de 190.000 homens distribuídos entre os ramos terrestre, naval e aéreo. Além deles, há a Basij, a força paramilitar com centenas de milhares de membros espalhados por todos os cantos da sociedade iraniana, nas ruas, nos bairros, nas escolas e mesquitas (funciona como uma milícia). Eles não são apenas leais ao Líder supremo, mas estão inseridos em uma ideia estatal mais profunda e estão comprometidos com a independência do Irã, pois a Guarda Revolucionária Islâmica vigia os Artesh para impedir articulações golpistas.
6️⃣ O papel de Larijani deve ser compreendido nesse contexto. Larijani era visto, até setembro de 2025, por algumas avaliações ocidentais e israelenses, como uma figura de transição potencialmente aceitável, antes de se tornar um alvo no início de fevereiro de 2026. A mudança é atribuída ao seu papel em pressionar por repressões internas, adotando uma postura mais confrontativa em relação aos Estados Unidos e a Israel e assumindo um papel central na definição das operações militares da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Larijani conseguiu conciliar a consolidação interna e a escalada externa em um momento de forte pressão. Seu propósito não era a persuasão, mas a imposição: proteger o regime contra uma sociedade mais ampla e, muitas vezes, relutante.
Essa estrutura perdurou. Ela sustentou a repressão durante o Movimento Verde de 2009, durante os protestos das mulheres, Vida e Liberdade em 2022 e moldou a grande repressão janeiro de 2026.
7️⃣ Larijani também foi o responsável pela doutrina marítima de pressão assimétrica da Guarda Revolucionária Islâmica. Apesar das tensões dentro da elite política, Larijani permaneceu firmemente no núcleo da liderança. Leal e disciplinado, ele personificava a continuidade entre as instituições. Após a morte do Líder Supremo Ali Khamenei no ataque de 28 de fevereiro que deu início à atual fase da guerra, a experiência e as conexões de Larijani o posicionaram como figura estabilizadora. Sua recondução ao cargo de chefe de segurança nacional do Irã em 2025 reforçou esse papel. A partir daí, ele coordenou a política nuclear, o gerenciamento de crises e as relações entre as principais instituições do regime.
8️⃣ A autoridade no Irã é cada vez mais exercida por meio de redes clericais provinciais, comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e estruturas da milícia Basij. Os recursos são mobilizados localmente, a repressão é aplicada localmente e a sobrevivência é gerenciada localmente. Larijani pertencia ao círculo cada vez menor que ainda era capaz de conectar esses fragmentos a um comando central. Sua morte dificulta uma negociação. Quanto mais dividido fica o mosaico, mais difícil é a contenção. Tal como a Hidra de Lerna, no lugar de uma cabeça cortada nascem duas. A infraestrutura de mísseis permanece dispersa por locais fortificados e subterrâneos. Embarcações rápidas e veículos não tripulados continuam a ameaçar a navegação no Estreito de Ormuz. Milícias aliadas operam por meio de canais projetados para sobreviver à perda de lideranças.
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