Israel atacou o maior campo de gás do mundo, que é compartilhado por Irã e Qatar
Por Marcus Paiva
Jornalista
🚩 Caças israelenses atacaram instalações de energia no campo de gás de South Pars, no Irã, o maior do mundo, localizado em Asaluyeh, província de Bushehr, no Golfo Pérsico. "Atacamos uma importante instalação de gás iraniana em Bushehr, no sul do país, como parte de ataques à sua infraestrutura nacional. O ataque foi coordenado com os Estados Unidos”, declararam as Forças de Defesa de Israel. Os ataques tiveram como alvo instalações de processamento de gás e industriais. Em resposta, o Irã interrompeu o fornecimento de gás para o Iraque. O gás foi totalmente redirecionado para consumo interno. O Irã fornece cerca de 30 a 40% do gás e da eletricidade do Iraque, o que significa que a interrupção tem um impacto imediato no sistema energético iraquiano e na sua estabilidade geral.
⚠️ Só que esse ataque foi um erro estratégico que pode escalar a guerra e a crise energética regional. O campo de gás de South Pars não é propriedade exclusiva do Irã, já que sua exploração é feita em parceria com o Qatar. Ele representa cerca de 75% de toda a produção de GNL do Irã mas também afetará o Qatar. O Emir do Qatar Sheik Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani pediu aos Estados Unidos que acabassem com o Irã. Israel atacou South Pars. O Qatar agora condena o ataque como uma ameaça à segurança energética global. Em nota condenou o ataque israelense e afirmou que esse tipo de ação é perigosa e irresponsável, pois prejudica diretamente todo o mercado global de energia e o meio ambiente.
1️⃣ South Pars e o Campo Norte do Qatar são o mesmo reservatório. O maior depósito de gás da Terra, dividido por uma fronteira marítima. O Irã produz de um lado. O Qatar produz do outro. Quando as bombas israelenses atingiram as instalações de processamento da Fase 14 no lado iraniano, elas não prejudicaram apenas a produção de gás iraniana. Elas introduziram um risco na dinâmica da pressão do reservatório que rege a máquina de exportação de GNL do Qatar, avaliada em US$ 130 bilhões anuais. O Qatar é o maior exportador de gás natural do mundo. Todo o seu modelo econômico se baseia no Campo Norte. A expansão para o Campo Norte Leste e o Campo Norte Sul, com centenas de bilhões em investimentos já comprometidos, depende de condições estáveis do reservatório em toda a geologia compartilhada.
2️⃣ Uma campanha de ataques contínua à infraestrutura de extração iraniana poderia alterar os gradientes de pressão, forçar ajustes na produção ou desencadear paralisações preventivas no lado do Qatar. A geologia não reconhece a fronteira. O Qatar, juntamente com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, fizeram pressão pela neutralização militar completa do Irã. Todos os seis estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) pressionaram Washington para que não parasse por aí. O Qatar queria a destruição da capacidade de mísseis do Irã, queria a eliminação da ameaça nuclear, queria o fim dos drones. O que o Qatar não queria era que bombas atingissem o campo de gás que financia sua soberania. Essa é a armadilha que a guerra de precisão cria quando o alvo compartilha a mesma geologia que o aliado.
3️⃣ Agora, considere a previsão do petróleo. O Citi elevou sua projeção base para o Brent para US$ 110 a US$ 120 por barril nos próximos dias, com um cenário otimista de US$ 150 a US$ 200 se o Irã atacar mais infraestrutura energética ou se o estreito permanecer fechado por mais tempo. Cenário pessimista: US$ 65 a US$ 70 se um acordo reabrir o fluxo. O Brent fechou perto de US$ 109 em 18 de março, já dentro da faixa base. O cenário otimista não é uma previsão. É um alerta. O Citi elevou simultaneamente sua meta para o alumínio para US$ 3.600 por tonelada, com um cenário otimista de US$ 4.000, citando força maior no Golfo Pérsico e interrupções no transporte marítimo. O mercado de metais está agora precificando o que o mercado de petróleo ainda não absorveu completamente: este não é um choque do petróleo bruto. É um choque industrial multifacetado.
4️⃣ Com o petróleo a US$ 150, a transmissão de fertilizantes para a agricultura estadunidese acelera catastroficamente. O gás natural é a matéria-prima para a ureia. Preços mais altos do gás significam custos mais altos de nitrogênio, além do prêmio do bloqueio de Ormuz. O agricultor em Iowa, que já está optando pela soja com a ureia a US$ 610, enfrentaria custos de nitrogênio que tornariam o plantio de milho inviável em qualquer margem. A mudança do cultivo de milho para o de soja, atualmente projetada em 4,8 milhões de acres, poderia dobrar. A condenação do Qatar não impedirá os ataques. A política de círculo de alvos de Israel autoriza a eliminação de qualquer autoridade iraniana sem aprovação adicional. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) publicou imagens de satélite de Ras Laffan e Mesaieed, ambas instalações do Qatar, como alvos iminentes de ataques.
5️⃣ O Qatar condena o ataque ao campo que compartilha com o Irã, enquanto o Irã ameaça as instalações que o Qatar opera em seu próprio território. O maior exportador mundial de GNL está preso entre o aliado que bombardeou seu campo de gás compartilhado e o inimigo que está atacando sua infraestrutura. Ambos os lados estão atingindo o gás do Qatar. Nenhum dos lados pede permissão. O reservatório não se importa com diplomacia. O preço da ureia não se importa com condenações. E a época de plantio também não. Até o momento, os EUA haviam recomendado que Israel não atacasse esse tipo de infraestrutura, justamente para evitar a retaliação iraniana. Só que o recente ataque israelense contra South Pars contou com o aval dos EUA.
6️⃣ Anteriormente, a guarda Revolucionária Islâmica iraniana anunciou que retaliaria na mesma proporção os ataques feitos pelos EUA/Israel, afirmando que atacará infraestruturas petroquímicas dos países que cederem território para operações militares ou que participarem de ações contra o Irã. O ataque contra South Pars é uma das maiores escaladas da guerra até o momento, confirmando as expectativas de que Israel deseja aumentar o escopo do conflito contra o Irã. Um dos objetivos desse tipo de ação é provocar o aumento das operações dos EUA contra o Irã e que os países do Golfo entrem definitivamente no conflito, pois, até o momento, nenhum grande objetivo da coalizão EUA/Israel foi atingido na guerra contra o Irã. A mudança de regime por decapitação não ocorreu nem a destruição do programa nuclear iraniano, que está no subterrâneo.
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