Aiatolah Mojtaba Khamenei: O líder clausurado do Irã e o acionamento da Doutrina mosaico
Jornalista
🚩 A guerra com o Irã entrou em seu 13º dia na quinta-feira e a TV iraniana divulgou a primeira mensagem de seu novo líder supremo, Aiatolah Mojtaba Khamenei, sem a sua imagem e a sua voz. A mensagem foi lida por um jornalista na TV estatal iraniana. Segundo informações da inteligência estadunidense, ele sofreu ferimentos leves, mas continua exercendo suas funções em local desconhecido. Mojtaba teria sofrido uma fratura no pé e um ferimento ao redor do olho esquerdo, assim como pequenos cortes no rosto. Uma fonte israelense havia dito anteriormente que Mojtaba foi ferido em uma tentativa de assassinato na semana passada, e rumores sobre os ferimentos de Khamenei circulam há dias. O novo líder supremo não foi visto em público nem se ouviu falar dele nos dias que se seguiram ao anúncio de sua eleição como o novo chefe de Estado do Irã.
1️⃣ Em sua primeira declaração oficial no cargo, o filho de Ali Khamenei defendeu que todas as bases estadunidenses na região devem ser fechadas imediatamente, caso contrário, serão atacadas. Além disso, comentou também que o Estreito de Ormuz seguirá fechado para "pressionar os inimigos". Mojtaba acrescentou que o Irã "acredita na amizade com os países vizinhos e ataca apenas as bases", acrescentando que tais ataques "inevitavelmente continuarão". Na mesma declaração, o líder iraniano apelou à unidade nacional, prometendo que o Irã "não se absterá de vingar o sangue dos seus mártires". "É algo que compartilho com as pessoas que perderam seus entes queridos, porque eu perdi meu pai, perdi minha esposa. Minha irmã perdeu o filho e o marido, que foi martirizado. Mas o que torna mais fácil para nós suportar todas essas provações é confiar na graça de Deus e saber que a paciência resolverá tudo. Garanto a todos que não ignoraremos o fato de que vingaremos nossos mártires", disse a declaração de Mojtaba.
2️⃣ Segundo ele, aqueles que sofrerem danos serão ressarcidos. Os feridos receberão tratamento gratuita e a "situação atual deve ser resolvida oferecendo alguma compensação financeira àqueles que sofreram danos". "Vamos exigir compensação do inimigo. Se não conseguirmos compensação, destruiremos suas propriedades tanto quanto eles destruíram as nossas". Mojtaba agradeceu aqueles que estão lutando no conflito, os "combatentes da Frente de Resistência" e disse que eles são os "melhores amigos do Irã". "A Frente de Resistência é parte inseparável dos valores da Revolução Islâmica". De acordo com a agência estatal IRNA, o pronunciamento, descrito como “estratégico”, será divulgado em sete partes e marcará a primeira comunicação oficial do novo líder desde que assumiu o posto após a morte de seu pai, o aiatolá Ali Khamenei.
3️⃣ A única imagem de Mojtaba Khamenei em circulação desde a nomeação é um retrato pré-fabricado. Nenhuma fotografia, nenhum vídeo, nenhum áudio, desde quando assumiu a chefia de Estado. Só um retrato e um título. De acordo com o Artigo 110 da Constituição iraniana, o Líder Supremo detém autoridade de comando exclusiva sobre todas as forças armadas. Ele nomeia e exonera todos os comandantes militares. Nenhuma outra instituição pode emitir ou revogar ordens militares. O corpo da guarda Revolucionária Islâmica, a milícia Basij, as forças armadas e o Hezbollah juraram lealdade a Mojtaba khamenei, mesmo sem ver, ouvir ele. Mojtaba Khamenei é agora um líder clausurado, que comanda nas sombras, assim como o Emir do Afeganistão Mullah Hibatullah Akhundzada. O Emir do Afeganistão governa do claustro, e desde 2021 não fez nenhuma foto, vídeo ou pronunciamento. Suas ordens e discursos são por escritos e lidos por terceiros.
4️⃣ A tentativa de Trump de mudança de regime por decapitação no Irã, estratégia utilizada pela administração Trump na Venezuela, com remoção rápida da liderança central e a sua substituição por uma nova liderança colaboracionista sem colapsar o regime, falhou. Trump acreditava que poderia forçar uma tomada de poder por algum colaboracionista ou uma desestabilização eliminando o líder supremo, mas há dois erros nessa estratégia: Primeiramente, o Irã possui um sistema de governo colegiado em mosaico. Isso quer dizer que a autoridade não é concentrada no líder supremo mas é dispersa por células autônomas, que são colegiados com mais poder de fato do que o líder supremo. O regime é dos Aiatolás e não de um Aiatolá.
5️⃣ A complexidade do sistema de governo iraniano levou Trump ao erro. Quem comanda de fato o Irã é um colegiado dividido em 3 câmaras altas: A Assembleia dos Peritos, que é corpo de 88 clérigos islâmicos (juristas) eleitos por voto popular para mandatos de 8 anos. Eles são responsáveis por eleger, supervisionar e destituir o Líder Supremo. O conselho dos Guardiães composto por 12 juristas que fazem um "controle de constitucionalidade não laico" das leis e aprovam candidatos nas eleições. E o conselho de Discernimento que é um órgão consultivo do líder supremo, que possui cerca de 45 membros. Além disso, desde o início de 2026, Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, emergiu como o líder de fato do país, com mais poder do que o líder supremo. Larijani tem o apoio do comando da guarda Revolucionária Islâmica, que é outro poder fundamental no país e que pressionou o conselho dos Guardiães para a escolha de Mojtaba Khamenei como o novo líder supremo. Nesse sistema, a redundância substitui a hierarquia.
6️⃣ Em segundo lugar, a desestabilização com a eliminação de Ali Khamenei não aconteceu. Os 31 comandos provinciais autônomos da Guarda Revolucionária Islâmica operam com base em ordens pré-delegadas de seu falecido líder supremo. Somente um Líder Supremo em exercício pode anular essas ordens. O Líder Supremo é um retrato na parede, um título, uma ordem. A Doutrina Mosaico foi concebida para sobreviver à decapitação. Ela foi ativada porque o Líder Supremo foi morto. Ela continua porque o sucessor é um líder clausurado, a máquina vai funcionar no "automático". A cada dia que Mojtaba permanece em silêncio, os 31 comandos operam cada vez mais em modo autônomo. A cada dia que o retrato substitui a pessoa, o mecanismo constitucional que poderia centralizar o comando permanece congelado.
7️⃣ A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) não precisa de Mojtaba para comandar. Ela precisa que ele exista. A televisão estatal lhe deu um título que diz que ele existe, mas está ferido. Isso basta para a doutrina mosaico. Trump não conseguiu escolher um líder supremo títere, nem um colaboracionista tomou o poder. A mudança de regime tradicional ou por decapitação não é possível, pelo menos no cenário atual. A dificuldade notável de realizar uma façanha deste tamanho, além de depender de múltiplos fatores já citados, passa principalmente pela necessidade de gerar um descontentamento militar iraniano, o que levaria à perda de lealdade e confiança dos militares no Aiatolah e, consequentemente, a uma cisão interna no seio militar da República Islâmica. Como comandante-em-chefe, o Aiatolah Mojtaba Khamenei controla todas as forças armadas do Irã, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), a milícia Basij e o exército iraniano (Artesh). A IRGC e a Basij são especialmente leais ao líder supremo.
8️⃣ As Forças Armadas iranianas possuem uma arquitetura dupla, projetada para resistir a golpes e principalmente a invasões: Os Artesh, são as forças armadas regulares, contam com cerca de 420.000 homens, distribuídos entre forças terrestres, navais, aéreas e de defesa aérea, e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que é uma força militar de elite, ideologicamente orientada, conta com cerca de 190.000 homens distribuídos entre os ramos terrestre, naval e aéreo. Além deles, há a Basij, a força paramilitar com centenas de milhares de membros espalhados por todos os cantos da sociedade iraniana, nas ruas, nos bairros, nas escolas e mesquitas (funciona como uma milícia). Eles não são apenas leais ao Líder supremo, mas estão inseridos em uma ideia estatal mais profunda e estão comprometidos com a independência do Irã, pois a Guarda Revolucionária Islâmica vigia os Artesh para impedir articulações golpistas.
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