O conclave e a política por trás da eleição de um novo Papa.

Por Marcus Paiva
Jornalista e Editor-Chefe

🚨 Hoje (7) foi o primeiro dia do Conclave, a eleição do novo papa realizada pelo Colégio de cardeais na capela Sistina. A fumaça preta resultado do escrutínio já era esperada. Dificilmente um novo papa seria eleito no primeiro dia. Como chefe de Estado, o Papa é essencialmente um monarca absoluto teocrático, eleito por um colégio eleitoral (o "Colégio dos Cardeais"). No entanto, ele geralmente tende a delegar a administração civil do Vaticano a outras instituições. Embora o Papa seja soberano absoluto, o Secretário de Estado atua de fato como chefe de governo, e a Pontifícia Comissão, como órgão legislativo. Logo após a morte do papa, o Vaticano fica sem soberano mas não sem administração. Durante esse período de interregnum chamado de sede vacante, o Estado do Vaticano fica sob o comando do Camerlengo, que preside a Câmara Apostólica, e do Decano do Colégio dos Cardeais. O cardeal camerlengo atual é o irlandês Kevin Joseph Farrell, é ele que convoca todos os cardeais do mundo para compor o chamado Colégio Cardinalício, que atualmente formado por 252 religiosos, incluindo oito brasileiros. 
‼️ Esse grupo ajuda a organizar o Conclave e discute questões do Vaticano e da igreja. Pelas regras atuais do Vaticano, o Conclave começa entre 15 e 20 dias após a morte do papa. E essa data foi fixada para hoje, 7 de maio. No entanto, apenas os cardeais com menos de 80 anos podem participar da eleição, ou seja, são elegíveis e podem votar. Atualmente, 135 se enquadram nesse critério — entre eles, sete brasileiros. Só que, somente 133 estão em condições de saúde para participar do processo. Para ser eleito Papa o cardeal deve receber 2/3 dos votos, ou seja, 89 votos. O conclave é presidido pelo Cadeal Decano, que atualmente é o italiano Giovanni Battista Re. Como a política do Vaticano está amalgamada com a religião, não é correto classificar os cardeais como conservadores e liberais, pois não há partidos políticos mas grupos político-filosóficos que se alinham nas congregações gerais que são reuniões entre os cardeais antes do início do Conclave. É nessas reuniões que ocorrem os alinhamentos políticos para a formação de blocos de votantes para a escolha de um novo Papa.
❗️Podemos dividir o Colégio Cardinalício em 3 vertentes político-filosóficas: Tradicionalistas, moderados e Progressistas. Os progressistas defendem uma igreja mais "inclusiva", aberta ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à ordenação de mulheres, e buscam uma revisão do celibato sacerdotal. Os moderados São pró-imigração, pró-política climática e relativamente progressistas em questões sociais. Os tradicionalistas são apoiadores dos ensinamentos tradicionais da Igreja e rejeitam experimentos doutrinários. São defensores da moral cristã tradicional, críticos da reforma litúrgica pós-Vaticano II e opositores do bergoglianismo. Quanto ao perfil de cada cardeal há os pastorais (que não gostam de lidar com a alta administração) e os mais ligados ao direito canônico e a Diplomacia. Deve-se levar em consideração que a maioria dos Cardeais (53) são europeus. 
🚩 Os Papabili (os favoritos na disputa) são: Pietro Parolin (italiano), moderado, foi o número 2 do Vaticano, era o secretário de Estado e sua experiência com a Diplomacia pode pesar a seu favor. Pretende partilhar este texto? Utilize as ferramentas de partilha que encontra na página de artigo. Parolin foi essencial no restabelecimento das relações entre o Vaticano e a China, em 2018, através de um acordo (terminado em 2022) que deu ao Papa algum peso sobre a nomeação ou veto de bispos pelo Partido Comunista Chinês em troca do reconhecimento de sete bispos chineses não admitidos pelo Vaticano. Foi também fundamental no reatar das relações entre os Estados Unidos e Cuba e visitou a Ucrânia e o presidente Volodymyr Zelensky, em 2024. Luis Antonio Tagle (filipino) progressista, defensor da doutrina da misericórdia, apoiando ideias de ecologia e ambientalismo e defesa da comunidade LGBT, mães solteiras, justifica social e as pessoas divorciadas (ilegal nas Filipinas). Matteo Zuppi (italiano), progressista, "padre de rua” que se concentra nos migrantes e nos pobres, abraça o pluralismo religioso e que dá menos importância ao protocolo. Peter Erdo (húngaro) tradicionalista, contra o aborto e contra o casamento entre homossexuais. Peter Turkson (ganense) progressista. Jean-Marc Aveline (francês) progressista e protodiácono. Pierbattista Pizzaballa (Italiano), patriarca latino de Jerusalém e moderado. Robert Sarah (guineense) tradicionalista ortodoxo, defende inclusive a missa em latim de costas. 
⚠️ Durante os dias do Conclave, os cardeais eleitores ficam fechados dentro de uma área restrita do Vaticano, conhecida como "zona de Conclave". Eles também fazem um juramento de segredo absoluto sobre o processo. A Gendarmaria do Vaticano, sob a liderança de Gianluca Gauzzi Broccoletti, enfrenta muitos desafios de contraespionagem para proteger a integridade do conclave, com possíveis ameaças à integridade, incluindo sistemas de inteligência artificial, drones, microfones microscópicos, campanhas de desinformação, a ubiquidade das mídias sociais e até satélites. O Corpo de Gendarmaria está usando as 650 câmeras de segurança no Vaticano, bem como mensagens criptografadas junto com detecção e resposta de endpoint para proteger o conclave. O processo de seleção do novo papa é altamente secreto, com o contato sendo inibido por bloqueadores de sinal, eliminando a comunicação utilizando Bluetooth, Wi-Fi e redes móveis. 
1️⃣ No dia da votação, a Capela Sistina, com seu famoso teto pintado por Michelangelo, é fisicamente fechada por uma corrente e um cadeado com a palavra Conclave gravada nele e os cardeais, que fizeram um juramento de segredo, são trancados lá após o Arcebispo Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias Diego Giovanni Ravelli dizer "extra omnis" (fora todos vocês, em latim). Nem ele permanece na capela Sistina, somente os cardeais eleitores ficam lá. “Eligo in Summum Pontificem” (“Eu elejo Sumo Pontífice”). Estas são as palavras impressas em cada cédula que os 133 cardeais eleitores usarão para escolher o 267º Romano Pontífice. A cédula é retangular, com a metade superior contendo a frase em latim e a metade inferior em branco para o cardeal escrever o nome do candidato escolhido. A cédula foi projetada para ser dobrada ao meio — um detalhe prescrito pela Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis. 
2️⃣ Cada cardeal eleitor recebe pelo menos duas ou três cédulas, distribuídas pelos oficiais cerimoniais. Em seguida, o cardeal diácono sênior faz um sorteio para nomear três escrutinadores (para contar os votos), três infirmarii (para coletar os votos dos cardeais doentes) e três revisores (para verificar a contagem). Se algum dos selecionados não puder desempenhar suas funções devido a doença ou outros motivos, novos nomes são sorteados em seu lugar. Esta etapa é conhecida como pré-escrutínio. Antes do início da votação, todos os não eleitores – incluindo o secretário do Colégio Cardinalício, o Mestre das Celebrações Litúrgicas Papais e os oficiantes cerimoniais – devem deixar a Capela Sistina. O cardeal diácono sênior fecha as portas, abrindo-as e fechando-as apenas quando necessário, como quando os infirmarii vão coletar os votos de cardeais doentes e retornam.
3️⃣ Cada cardeal, em ordem de precedência (cargo maior, depois idade maior até o feito cardeal mais recentemente) escreve o nome do candidato escolhido na cédula, dobra-a, segura-a no alto para que fique visível e a leva ao altar. Lá, um cálice é colocado com um prato cobrindo-o. Cada eleitor diz em voz alta, em italiano: "Chiamo a testimone Cristo Signore, il quale mi giudicherà, che il mio voto è dato a colui che, secondo Dio, ritengo debba essere eletto". (“Chamo como minha testemunha Cristo Senhor, que será meu juiz, para que meu voto seja dado àquele que acredito que deve ser eleito segundo Deus”.) O cardeal então coloca a cédula no prato e a usa para depositar o voto no cálice, faz uma reverência diante do altar e retorna ao seu assento. Os cardeais que estão presentes, mas não conseguem ir até o altar devido a doença, entregam sua cédula dobrada a um dos escrutinadores, que a leva até o altar e a deposita da mesma maneira, sem recitar o juramento novamente.

4️⃣ Se algum cardeal estiver doente demais para estar na capela, os três infirmarii o visitam com uma bandeja de cédulas e uma caixa lacrada (previamente mostrada vazia e trancada com a chave colocada no altar). A parte superior da caixa possui uma fenda por onde as cédulas dobradas podem ser inseridas. Após a votação, os infirmarii trazem a caixa de volta para a capela, onde é aberta diante dos eleitores. Os votos são contados e somados aos que já estão no cálice principal. Após a votação de todos os votos, o primeiro escrutinador agita o cálice para misturar as cédulas. O último escrutinador conta as cédulas uma a uma, transferindo-as para um segundo recipiente vazio. Se o número de cédulas não corresponder ao número de eleitores, todas as cédulas são queimadas e uma nova votação é realizada imediatamente. Se a contagem estiver correta, as cédulas são abertas e lidas. Os três escrutinadores sentam-se à mesa diante do altar. O primeiro lê o nome escrito na cédula e a passa para o segundo, que confirma o nome e a entrega ao terceiro, que a lê em voz alta para que todos ouçam e registra o voto. Se duas cédulas parecerem ter sido escritas pela mesma pessoa e contiverem o mesmo nome, elas contam como um voto. Se contiverem nomes diferentes, ambas são inválidas, embora o voto geral permaneça válido.

5️⃣ Após a leitura de todas as cédulas e a contagem dos votos, o escrutinador final fura cada cédula com uma agulha, passando pela palavra "Eligo", e as amarra com um barbante. As pontas do barbante são amarradas com um nó, e as cédulas são guardadas em segurança. Lembrando que para eleger um novo Papa, é necessária uma maioria de dois terços, isso significa que são necessários pelo menos 89 votos de um total de 133 eleitores. Independentemente de um Papa ser eleito ou não, os revisores verificam cuidadosamente a contagem e as anotações feitas pelos escrutinadores para garantir que tudo tenha sido realizado corretamente. Depois disso, antes que os eleitores deixem a Capela Sistina, todas as cédulas são queimadas em um forno de ferro fundido usado pela primeira vez no conclave de 1939. Os escrutinadores cuidam disso com a ajuda do secretário do Colégio e dos oficiais cerimoniais, que são convocados pelo diácono sênior. Um segundo fogão, instalado em 2005, é conectado a uma chaminé visível da Praça de São Pedro. É lá que os produtos químicos são adicionados para colorir a fumaça: preta se nenhum Papa foi eleito, branca se um foi. Se duas votações forem realizadas em sequência, as cédulas de ambas são queimadas juntas ao final do segundo turno.

6️⃣ A votação ocorre quatro vezes ao dia — duas vezes pela manhã e duas à tarde. Hoje, no primeiro dia do Conclave só há uma votação. Se, após três dias, nenhum candidato for escolhido, a votação é interrompida por um dia para discussões informais e uma breve exortação espiritual do cardeal diácono sênior. A votação então recomeça. A cada sete rodadas adicionais sem sucesso, segue-se outra pausa e exortação – primeiro pelo cardeal-sacerdote sênior e, posteriormente, se necessário, pelo cardeal-bispo sênior. Se, após 21 votações, ainda não houver Papa eleito, faz-se uma pausa final para oração, diálogo e reflexão. Nesse momento, a votação prossegue — mas os cardeais só podem escolher entre os dois candidatos mais votados na rodada anterior. Essa é uma espécie de segundo turno. Mesmo assim, a maioria de dois terços ainda é necessária, e os dois candidatos em questão não podem votar nesse caso. 

7️⃣ Depois que um Papa é eleito, ele é levado à "Sala das Lágrimas", uma pequena sala ao lado da Capela Sistina, onde ele veste as vestes papais brancas pela primeira vez. O decano então pergunta ao papa eleito se ele consente com a eleição, dizendo em latim: Acceptasne electionem de te canonice factam in Summum Pontificem? (Aceita a sua eleição canônica como Sumo Pontífice?). Após aceitar, o novo papa coloca as vestes papais. O cardeal protodiácono lê o anúncio em latim Habemus papam, que significa "Temos um papa", da sacada principal da Basílica de São Pedro, com vista para milhares de fiéis ansiosos. Os Conclaves que elegeram Francisco, em 2013, e Bento XVI, em 2005, foram concluídos em apenas dois dias. De modo geral, as eleições dos últimos 100 anos foram rapidamente resolvidas. Na história da Igreja como um todo, porém, já houve eleições que duraram semanas — incluindo um episódio no século XIII em que um Conclave demorou mais de dois anos para ser concluído e terminou com a eleição de Gregório X. Embora o eleito provavelmente esteja entre alguns dos favoritos, os "Papabili" (pessoas citadas pela imprensa como favoritos), eles podem não se tornar Papas, porque se formam blocos contra eles. 

8️⃣ Lembrando que os bispos eleitores desempenham um papel político e que o Papa é além de chefe da Igreja Católica, o Chefe de Estado do Vaticano, então há muita política envolvida no Conclave, só que os candidatos a papa não fazem campanha abertamente para a posição. Então o papa recém-eleito, tendo escolhido um nome papal (provavelmente um que homenageia um santo ou predecessor) e vestido uma batina branca, os múlios (sapatos vermelhos), o pálio (estola de Pedro) sai para a sacada para fazer seu primeiro discurso ao público. Além de definir os ensinamentos e a moral da igreja, o papa exerce significativo poder diplomático e político na política mundial, atuando como mediador em conflitos globais.


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