Líder da Líbia Cirenaica vai à Rússia enquanto confrontos eclodem na Líbia Tripolitânia

Por Marcus Paiva
Jornalista e Editor-Chefe

⚠️ O presidente russo Vladimir Putin recebeu no Kremlin seu aliado, o Marechal Khalifa Haftar, warlord e líder de fato da Líbia Cirenaica, a parte ocidental do país. O comandante do Exército Nacional Líbio, Haftar, chegou a Moscou em visita oficial, onde se encontrou com o vice-ministro da Defesa da Rússia, Yunus-Bek Yevkurov, responsável pela expansão do Africa Corps (antigo grupo Wagner da África) no país. Enquanto o governo de Bengazi e Tobruk discutem a ampliação da presença da Rússia na Cirenaica, a parte ocidental da Líbia teve uma nova escalada de crise. Confrontos violentos entre a milícia SSA (Aparelho de Apoio à Estabilidade) e a milícia Brigada de combate 444 eclodiram em Trípoli na noite de terça-feira, depois do assassinato do líder da SSA dentro do Quartel-General da Brigada 444.
1️⃣ Fogo pesado de artilharia por toda Trípoli. Uma batalha territorial teve início entre grupos alinhados ao governo sediado em Trípoli – a Força Especial de Dissuasão (Al-Rada) do Ministério do Interior e seus aliados contra várias unidades que operam sob o Ministério da Defesa, como a 444ª Brigada de Infantaria e as chamadas forças conjuntas de Misrata. Ambos estão tentando tomar o controle de partes da cidade após o assassinato do líder de outro grupo armado na segunda-feira, a SSA. O repentino aumento da violência tem grandes ramificações políticas, já que um lado critica o primeiro-ministro Abdulhamid Dbeibah, enquanto o outro permanece leal a ele. A tensão começou a aumentar na capital na noite de segunda-feira, após a notícia de que Abdel Ghani al-Kikli (também conhecido como Gnewa) havia sido morto durante uma reunião com líderes das forças ligadas ao Ministério da Defesa, dentro de uma instalação administrada pela milícia rival chamada Brigada de Combate 444, comandada por Mahmoud Hamza. Sua morte desencadeou confrontos entre a SSA e a Brigada 444.
2️⃣ al-Kikli havia se tornado um dos opositores mais ferrenhos de Dbeibah, embora liderasse uma milícia chamada Aparelho de Apoio à Estabilização, que opera sob a autoridade de Mohamed al-Menfi, presidente do Conselho Presidencial (Governo de Trípoli ). Ele desafiou o primeiro-ministro sobre nomeações em empresas estatais e a alocação de contratos. Na semana passada, seus comparsas atiraram em membros do conselho da holding de telecomunicações da Líbia, supostamente por causa de um contrato no valor de centenas de milhões de euros. A morte violenta de Gnewa deixou um súbito vácuo de poder em Trípoli. Dois de seus apoiadores, responsáveis, respectivamente, pelo serviço de inteligência interna e pela proteção da sede do banco central, fugiram da capital. Enquanto isso, a base da SSA recuou, com forças rivais avançando para suas bases sem lutar. 

3️⃣ Na tarde de terça-feira, Dbeibah anunciou que "o tempo dos sistemas de segurança paralelos chegou ao fim", ordenando uma rápida reorganização dos serviços de segurança na capital, incluindo guardas prisionais e unidades anti-imigrantes ilegais. Ele retratou o assassinato de Gnewa como prova de que o Estado estava reafirmando o controle sobre os grupos armados. Os críticos de Dbeibah, que durante anos o culparam por excessiva complacência em relação aos grupos armados, agora o acusam de ter eliminado Gnewa. Enquanto isso, comandantes da Al-Rada, que controla o aeroporto de Mitiga, em Trípoli, e a prisão adjacente, interpretaram as palavras de Dbeibah como significando que seriam os próximos na lista de alvos, levando-os a lançar um ataque contra seus rivais da Brigada 444 que haviam matado al-Kikli. Nem outros grupos armados do oeste da Líbia nem forças leais ao governo rival da Cirenaica entraram no conflito. 

4️⃣ Caso decidam fazê-lo, a capital poderá se transformar em um campo de batalha urbano, como visto pela última vez em 2022. Se esses confrontos servirão para minar ou consolidar a autoridade de Dbeibah permanece uma questão em aberto. De qualquer forma, os moradores de Trípoli são mais uma vez vítimas da violência perpetrada por forças além de seu controle. Se houver escalada isso pode levar a uma nova guerra civil, dessa vez entre Misrata e Trípoli. Imagens mostram combatentes da 444ª Brigada de Combate, da 111ª Brigada e outras unidades de segurança assumindo o controle total da área do Projeto al-Hadbah, ao sul de Abu Salim, um reduto da SSA. Uma fonte do Ministério da Defesa confirmou que cinco quartéis-generais da SSA foram tomados, com alguns funcionários capturados e outros fugiram após suas fileiras diminuírem.

5️⃣ O assassinato do chefe de uma das milícias mais poderosas da Líbia, acusada de abusar de requerentes de asilo e de crimes contra a humanidade, resultou em pesados confrontos com pelo menos seis mortes. A missão da ONU na Líbia instou todas as partes a "cessarem imediatamente os combates e restaurarem a calma", lembrando-as de sua obrigação de proteger os civis. "Ataques contra civis e objetos civis podem ser considerados crimes de guerra", afirmou. A Anistia Internacional e o Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR) descreveram o grupo de Kikli como um dos principais perpetradores da violência dentro dos centros de detenção da Líbia. De acordo com um relatório do painel de especialistas do Conselho de Segurança da ONU de dezembro de 2024, al-Kikli era uma figura central no equilíbrio de poder da Líbia, desempenhando um papel fundamental no financiamento de milícias por meio de práticas corruptas. Como líder da SSA, ele foi acusado de execuções extrajudiciais, tortura e graves violações de direitos humanos. Seu nome aparece em uma denúncia de 189 páginas apresentada em 2022 pelo ECCHR ao Tribunal Penal Internacional, listando-o entre os potenciais coautores de crimes contra a humanidade.

6️⃣ Lembrando que a milícia SSA está sob o Conselho Presidencial que chegou ao poder em 2021 com o governo de unidade nacional (GNU) do primeiro-ministro Dbeibah por meio de um processo apoiado pela ONU. A Líbia está dividida em ocidental e oriental desde a queda do ex-líder Muammar al-Gaddafi em 2011, na primeira guerra civil pós primavera arábe. O governo reconhecido pela OTAN, pela ONU e pela União Europeia fica em Trípoli (Líbia Tripolitânia/ocidental) cujo o governo é do presidente do conselho Presidencial Mohamed al-Menfi, e cujo o primeiro-ministro é Abdul Dbeibah. Já a Líbia Cirenaica (oriental) possui um líder, o warlord Marechal Khalifa Haftar que comanda o exército nacional líbio. Seu governo é sediado em Bengazi. Aguila Saleh Issa exerce o cargo de presidente da Câmara dos Representantes (presidente) e Osama Saad Hammad Saleh como primeiro-ministro, ambos sediados em Tobruk. Há ainda a região de Fezzan que é controlada por tribos e pequenos senhores da guerra. Haftar é um aliado de Putin e está implementando mercenários russos na sua porção da Líbia, além de facilitar a instalação de uma base naval russa por lá.

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