Vitória da CDU e ascensão da extrema-direita na Alemanha apontam para um país dividido


Por Marcus Paiva
Jornalista e Editor-Chefe 

⚠️ O partido Democrata-Cristão (CDU) da ex-chanceler Angela Merkel, liderado por Friedrich Merz venceu a eleição parlamentar de 2025 na Alemanha mas expôs uma divisão no país. Os eleitores que vivem no que foi a Alemanha Ocidental (capitalista) votaram em peso no partido conservador Democrata-Cristão CDU, mas os eleitores que vivem no que foi a Alemanha Oriental (socialista) deram a vitória o partido de extrema-direita AfD. Os resultados dessa eleição também marcaram uma grande reviravolta política. O partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD) continuou sua ascensão, ganhando 20,8% de votos e 152 assentos no Parlamento Alemão (Bundestag). Os resultados também revelaram o declínio eleitoral generalizado do partido centro-esquerda Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD), do atual Chanceler Olaf Scholz, que obteve apenas 16,4% dos votos e 120 assentos. Os partidos da União de centro-direita, a Christlich Demokratische Union Deutschlands (CDU) e a Christlich-Soziale Union in Bayern (CSU), foram os maiores vencedores, alcançando 28,5% dos votos e 208 assentos no Bundestag. Por não ter alcançado a maioria absoluta o CDU terá de formar uma Coalizão para eleger o Chanceler e formar o governo.
‼️ É importante lembrar que na taxonomia mais usual da teoria política o campo da direita possui uma constelação de posições situadas no polo mais extremo, mas nem toda ela costuma ser classificada como extrema-direita. Com décadas de estudos nesse assunto, o cientista político neerlandês Cas Mudde no libro "The Far Right Today" elaborou a classificação mais hegemônica no campo acadêmico e que vem sendo utilizada pela imprensa profissional. Mudde entende ser necessário distinguir no interior da ultradireita (Far Right) como dividida entre grupos que pretendem a completa subversão da ordem democrática, a extrema-direita (Extreme Right), em contraste com grupos que buscam operar no interior dos quadros institucionais, embora tencionando alguns valores caros à democracia liberal, a direita radical (Radical Right). Embora esteja associada à Mudde, na verdade essa classificação é resultado dos debates entre constitucionalistas da antiga República Federal Alemã (RFA) sobre a questão da fidelidade à Constituição. 
❗️ Após a experiência traumática do naz1smo, que ascendeu ao poder nos espaços autoritários da Constituição democrática da República de Weimar, a Alemanha criou mecanismos com os quais deveria ser impedido que situações parecidas ocorressem. Assim, em 1952 o Sozialistiche Reichspartei Deutschlands foi banido pelo Tribunal Constitucional Federal por ser considerado um sucessor do partido nazista. Nos quadros institucionais daquele país a direita radical é tolerada na ordem liberal; mas esse não é o caso da extrema-direita, onde se situa o fascismo e todas as suas variantes, como o naz1smo. Recentemente esse tribunal vem investigando o Alternative für Deutschland (AfD), fundado em 2013 e que se apresenta como um partido da direita radical populista. O próprio Mudde classifica a AfD nesses termos, mas a verdade é que há uma presença cada vez mais efetiva de neonaz1stas no seu interior tornam a AfD Extreme Right. Além disso, recentemente, alguns membros da AfD foram descobertos tramando um golpe de Estado com grupos neon4zistas (Reichsbürger), o príncipe Heinrich XIII Prinz Reuss e membros de um grupo de elite do Exército. Os conspiradores tinham um plano de deportação em massa de imigrantes. 

1️⃣ Quando o SPD de Olaf Scholz, Bündnis 90/Die Grünen (os Verdes) e o liberal Freie Demokratische Partei (FDP) formaram sua coalizão semáforo em 2021, eles prometeram uma redefinição progressiva após 16 anos de conservadorismo centrista da ex-chanceler Angela Merkel. Pouco mais de três anos depois, o resultado da eleição de 2025 destruiu sua aliança. Os índices de aprovação dos Verdes estavam anteriormente em uma trajetória descendente em meio a uma reação negativa sobre reformas energéticas custosas e uma eliminação gradual malfeita da energia nuclear. Enquanto isso, o FDP pró-negócios se tornou um dano colateral na crise econômica da Alemanha, com os eleitores provavelmente culpando as medidas de austeridade do Ministro das Finanças Christian Lindner pelo aprofundamento da recessão. O SPD se saiu apenas um pouco melhor , sua base tradicional da classe trabalhadora tendo sido corroída pela inflação e uma crise imobiliária em andamento.

2️⃣ O Alternativa para a Alemanha, ou AfD, dobrou seu apoio em apenas quatro anos para 20,8% e se expandiu de sua base de apoio no leste para se tornar a segunda maior força política no parlamento. Enquanto isso, o SPD do atual chanceler Olaf Scholz teve seu pior desempenho em décadas, garantindo apenas 16,4% dos votos. O AfD se tornou dominante no leste, espalhando-se para o oeste. Observe o mapa dos resultados eleitorais da Alemanha e você quase poderá viajar de volta no tempo para a Guerra Fria, quando uma cortina de ferro dividia a Alemanha Oriental socialista da Alemanha Ocidental capitalista. No leste, é uma faixa de azul claro do AfD, além de bolsões da esquerda como Berlim e metade de Leipzig. No oeste, a vasta maioria se tornou conservadora e pintou o mapa de preto, especialmente na Baviera, onde o partido conservador irmão do CDU, o CSU, domina a paisagem. Mas a AfD também está se espalhando no Ocidente, e a lealdade política aos antigos partidos tradicionais acabou.

3️⃣ Apesar de ter ficado em segundo lugar, a AfD está impedida de fazer parte do próximo governo por causa de um "firewall" - ou Brandmauer - (o cordão sanitário) operado pelos principais partidos da Alemanha, que não cooperam com nenhum partido visto como extremista desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A líder da AfD, Alice Weidel, insiste que é um movimento libertário e conservador, não r4cista mas não nega sua base neon4z1sta. Seu grande aumento no apoio público coincidiu com uma série de ataques mortais nos últimos nove meses, todos supostamente por imigrantes. A AfD adotou uma política altamente controversa chamada "remigração", que define como deportar migrantes que cometeram crimes. Mas o termo também pode se referir à deportação em massa de migrantes e seus descendentes. Detalhe: a líder do AfD é lésbica, não mora na Alemanha, mora na Suíça e é casada com uma imigrante do Sri Lanka.

4️⃣ Em maio de 2024, um tribunal alemão rejeitou um recurso da AfD contra uma decisão que a classificava como uma organização suspeita de neon4z1smo. Os juízes consideraram que a AfD tinha "posições que menosprezam a ordem democrática e são incompatíveis com o princípio da democracia". Em três estados alemães no leste — Turíngia, Saxônia-Anhalt e Saxônia — a inteligência doméstica designou a AfD como extremista de direita. Uma figura importante da AfD na Turíngia, Björn Höcke, foi duas vezes condenado por usar o slogan naz1sta proibido "Alles für Deutschland" - tudo pela Alemanha. Os apoiantes de Alice Weidel gritaram o seu nome durante a campanha eleitoral, usando a frase "Alice für Deutschland". Alemães votaram com a maior participação em 40 anos. Desde 1987, a participação eleitoral nunca foi tão alta quanto 82,5% em uma eleição alemã, e isso foi três anos antes da reunificação do leste e do oeste. Quatro anos atrás era 76,6%. 

5️⃣ Simplificando, mais de quatro em cada cinco dos 59,2 milhões de eleitores da Alemanha compareceram. Isso reflete o quão energizados os alemães ficaram com esta eleição, que acontece em um momento crucial para seu país. Houve nove debates na TV na reta final da campanha, mas isso refletiu o amplo interesse do público.
Acabou para os líderes do governo em colapso
O governo tripartite do chanceler cessante Olaf Scholz ruiu no final do ano passado e, 24 horas após a eleição de domingo, todos os três líderes disseram que estavam deixando a linha de frente da política. O líder dos liberais, o FDP, foi o primeiro. Christian Lindner liderou seu partido por 11 anos. Mas ele não conseguiu eleger nenhum parlamentar e Lindner disse que está deixando a política depois de 25 anos. Foi a recusa de Lindner em chegar a um acordo sobre as regras da dívida que primeiro derrubou o governo e depois deixou seu partido na miséria. Embora Scholz permaneça como chanceler até que o próximo governo seja formado, ele não participará das negociações de coalizão e deixará a linha de frente da política. 

6️⃣ O vice-chanceler do Partido Verde, Robert Habeck, também está deixando a política de linha de frente depois que seu partido caiu abaixo de 12% na eleição. Até algumas semanas atrás, o partido de Esquerda parecia condenado quando uma de suas principais figuras, Sahra Wagenknecht, partiu e fundou seu próprio partido, mais populista, com outros oito parlamentares. A popularidade de Wagenknecht aumentou por um tempo como líder de seu partido BSW, mas acabou caindo abaixo do limite de 5% para entrar no parlamento. A história foi muito diferente para a Esquerda (Die Linke), que voltou dos mortos com uma campanha inspirada nas redes sociais. Heidi Reichinnek, copresidente do Die Linke, viralizou depois de fazer um discurso defendendo entusiasticamente o firewall contra o AfD. Ela agora tem 580.000 seguidores no TikTok e sua postagem atraiu sete milhões de visualizações. Seu partido obteve pouco menos de 9% dos votos.

7️⃣ Os jovens foram para os extremos, os velhos ficam no centro. Os vídeos virais do Die Linke ajudaram a garantir um quarto dos votos de 18 a 24, e a AfD não ficou muito atrás, com 21%, de acordo com pesquisas da ARD TV. Alice Weidel foi o maior sucesso nas mídias sociais durante a eleição, maior até que Heidi Reichinnek. Ela atraiu mais de 935.000 seguidores no TikTok. Entre os maiores de 35 anos, foram os democratas-cristãos que venceram, e mais homens do que mulheres. O CDU/CSU de centro-direita capitalizou os erros do governo de coalizão. O líder Friedrich Merz, um falcão fiscal com uma recente propensão à retórica anti-imigrante, rebatizou o partido para moderados desiludidos. A promessa de Merz de cortar impostos corporativos e deportar "migrantes não integrados" (um aceno aos 2,1 milhões de requerentes de asilo que chegaram desde 2022) teve bom desempenho em pequenas cidades e subúrbios. Mas a estratégia de Merz traz riscos. A postura linha-dura de Merz em relação à Rússia — ele recentemente pediu a interrupção dos embarques de armas para a Ucrânia — alarmou os aliados da OTAN. Enquanto isso, a CSU da Baviera, temendo mais perdas para a AfD no futuro, agora provavelmente pressionará Merz a adotar políticas de imigração ainda mais duras.

8️⃣ O verdadeiro choque das eleições alemãs de 2025 foi a ascensão contínua da AfD. Liderando na Alemanha Oriental, o partido de extrema direita se expandiu além de seu núcleo nacionalista. Uma campanha de reformulação da marca, liderada pela copresidente Alice Weidel, suavizou a imagem da AfD (menos comícios, mais influenciadores do TikTok) ao mesmo tempo em que redobrou as mensagens anti-UE e céticas em relação ao clima. A chave para o apelo da AfD é o desespero econômico , particularmente na Alemanha Oriental. Em antigos centros industriais como a Saxônia-Anhalt, onde o desemprego juvenil continua altíssimo, a combinação ideológica da AfD de populismo assistencialista (' empregos alemães para trabalhadores alemães ') e mensagens anti-imigração repercutiu. Apenas um cenário viável de governo de coalizão parece provável agora. Um renascimento da "Grande Coalizão" SPD-CDU/CSU está surgindo como o resultado mais provável, particularmente depois que o líder da CDU, Friedrich Merz, descartou a coalizão com a AfD e anunciou sua intenção de formar um governo antes da Páscoa. Uma administração liderada pela CDU sob Merz provavelmente mudaria a Alemanha para a contenção fiscal, enfraquecendo ainda mais as principais iniciativas políticas da UE, como o Acordo Verde Europeu.

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