Partido pró-independência Demokraatit vence eleições na Groenlândia e futuro primeiro-ministro rejeita a proposta de anexação de Trump
Por Marcus Paiva
Jornalista e Editor-Chefe
🚩 O partido pró-independência Demokraatit de centro-direita, foi o mais votado da Groenlândia, com 30,26% dos votos (10 assentos no Parlamento), nas eleições parlamentares de terça-feira, num resultado surpreendente, uma vez que a ilha foi às urnas no meio das ameaças de Donald Trump de anexar o território autônomo. Seguiu-se-lhe o partido pró-independência Naleraq, que obteve 24,77% dos votos (8 assentos no Parlamento). O partido pró-independência Inuit Ataqatigiit (IA) ficou em terceiro lugar com 21,62% (7 assentos no Parlamento) enquanto o partido de esquerda e pró-independência Siumut ficou em quarto lugar com 14,88% dos votos (4 assentos no Parlamento). O único partido pró-Dinamarca, o conservador Atassuk ficou com 2 assentos no Parlamento (7,39% dos votos). Em fevereiro, o primeiro-ministro Mute Egede convocou eleições antecipadas, afirmando que o país precisava de estar unido durante um "período grave" que é diferente de tudo o que a Groenlândia já viveu.
⚠️ Legalmente, a Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca e os groenlandeses são cidadãos de pleno direito do Estado dinamarquês, mas como uma nação culturalmente separada e territorialmente remota, tem ampla autonomia sobre os seus assuntos internos e o seu próprio sistema político. A Groenlândia é uma monarquia parlamentar. O Inatsisartut (literalmente "Aqueles que Fazem a Lei") é o parlamento eleito, que investe um primeiro-ministro local. Ele é composto por 31 cadeiras eleitas por representação proporcional por listas abertas em distrito único. O chefe de Estado é o rei da Dinamarca. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem manifestado abertamente o seu desejo de anexar a Groenlândia, dizendo numa sessão conjunta do Congresso, que os Estados Unidos iriam conquistar "de uma forma ou de outra" a Ilha. A vitória do partido Inuit Ataqatigiit do primeiro-ministro cessante Egede era amplamente esperada, seguida do Siumut, dois partidos que dominaram a política da Groenlândia nos últimos anos. A ilha de 56.000 habitantes tem estado a caminho da independência desde, pelo menos, 2009.
‼️ Seis partidos políticos apresentam listas com o objetivo de influenciar a eleição do próximo ocupante da residência B-29. Quatro dos cinco principais partidos querem a independência, mas discordam sobre quando e como. O Naleraq é o partido mais agressivo a favor da independência, enquanto o Demokraatit defende um ritmo de mudança mais moderado e mais conectado com a Dinamarca. Jens-Frederik Nielsen, líder do partido Demokraatit agora deve formar um governo de coalizão, e rebateu na quinta-feira as repetidas alegações de Trump de que os Estados Unidos anexarão a ilha. “Não queremos ser americanos. Não, não queremos ser dinamarqueses. Queremos ser groenlandeses e queremos nossa própria independência no futuro”, disse Nielsen. “E queremos construir nosso próprio país por nós mesmos.” O primeiro-ministro cessante da Groenlândia, Múte Egede, disse que convocaria uma reunião de líderes partidários para rejeitar conjuntamente as ameaças de Trump, alertando: "Chega". “Desta vez, precisamos endurecer nossa rejeição a Trump. As pessoas não podem continuar a nos desrespeitar”, escreveu Egede no Facebook.
❗️ Egede continua liderando a Groenlândia enquanto um novo governo é formado. “O presidente estadunidese mais uma vez evocou a ideia de nos anexar. Não posso aceitar isso de forma alguma”, escreveu ele. “Respeito o resultado das eleições, mas considero que tenho uma obrigação como chefe de governo interino: por isso, pedi à administração que convoque os líderes dos partidos o mais rapidamente possível.” Os comentários foram feitos depois que Trump repetiu sua promessa de assumir o controle da ilha na quinta-feira. Durante uma reunião no Salão Oval com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, Trump afirmou que a eleição da Groenlândia foi "muito boa para nós", acrescentando: "A pessoa que fez o melhor é uma pessoa muito boa, no que nos diz respeito". Questionado se achava que os Estados Unidos anexariam a Groenlândia, Trump disse: “Acho que isso vai acontecer”. Trump disse que “a Dinamarca fica muito longe” da Groenlândia e questionou se o país ainda tinha o direito de reivindicar a maior ilha do mundo. “Um barco atracou lá há 200 anos ou algo assim. E eles dizem que têm direitos sobre ele”, disse Trump. “Não sei se isso é verdade. Não acho que seja, na verdade.” Trump disse que o controle dos Estados Unidos sobre a Groenlândia poderia ser importante por razões de segurança nacional e até sugeriu que a OTAN deveria se envolver, mas Rutte hesitou.
1️⃣ O que as eleições da Groenlândia significam para a ilha — e para os Estados Unidos ? A Groenlândia em breve terá um novo governo liderado por um partido pró-independência — sinalizando o que poderia ser uma eventual separação da Dinamarca. Isso é uma vitória para o presidente Trump, que repetidamente disse que quer anexar a ilha? Afinal, os eleitores rejeitaram o atual primeiro-ministro da Groenlândia, Múte Egede, cujo partido Inuit Ataqatigiit não possui mais a maioria das cadeiras do parlamento. Egede insistiu que a Groenlândia não está à venda e enquadrou a eleição em parte como um referendo sobre a intimidação aparentemente belicosa de Trump, dizendo que a eleição foi uma "escolha fatídica". Para começar, o partido Demokraatit também tem sido altamente crítico da retórica de Trump, insistindo que a ilha tem o direito à autodeterminação. O líder do partido e provável próximo primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, chamou Trump de "uma ameaça à nossa independência política".
2️⃣ O partido Demokraatit também é a favor de uma abordagem lenta para a independência, com um fortalecimento gradual da economia da ilha, que depende fortemente das exportações de pesca e subsídios diretos da Dinamarca, antes de seguir sozinha. Enquanto isso, Naleraq — outro partido de centro-direita — quer acelerar a independência. No passado, ele foi mais receptivo à mensagem do presidente dos Estados Unidos e ficou em segundo lugar na votação. Mas ainda não está claro se ele será convidado a se juntar ao novo governo ou será ignorado por uma coalizão entre o partido Demokraatit e partidos menores. A importância estratégica da Groenlândia está crescendo, especialmente porque um clima mais quente pode abrir novas rotas de navegação no Ártico nas próximas décadas. A apenas 950 milhas do Polo Norte, os Estados Unidos operam a Base Espacial Pituffik lá, uma instalação essencial para monitoramento de defesas de mísseis. Além disso, Trump está interessado nos minerais de terras raras que há na ilha.
3️⃣ Os Estados Unidos querem acesso aos recursos da Groenlândia para ajudar a quebrar a dependência dos Estados Unidos da China, que tem um quase monopólio em alguns elementos críticos usados nas indústrias de tecnologia e defesa. Mas a mineração na Groenlândia é desafiadora, com falta de infraestrutura, clima severo e resistência das comunidades locais. Uma pesquisa de opinião publicada em janeiro mostrou que um número esmagador de groenlandeses é a favor da independência. A pesquisa mostrou que 84% queriam a independência da Dinamarca, enquanto 45% disseram que só a queriam se não prejudicasse seu padrão de vida. Apenas 9% disseram que não queriam a independência total da Dinamarca e apenas 6% eram a favor de se tornar um estado dos Estados Unidos. Pode-se argumentar que os resultados das eleições recentes indicam uma firme rejeição das ambições territoriais dos Estados Unidos.
4️⃣ No mês passado, a Groenlândia aprovou uma lei para proibir contribuições estrangeiras a partidos políticos em um ato de autoafirmação após a retórica de Trump. O controle colonial da Groenlândia variou de acordo com as diversas mudanças de soberania entre os diferentes países nórdicos (que alternavam entre unir e separar). Quando a Dinamarca e a Noruega se separaram pela última vez em 1814, a ilha foi permanentemente cedida à Dinamarca. Tudo isso mudou em 1940, quando a Alemanha naz1sta invadiu a Dinamarca, deixando a Groenlândia desconectada. Procurando evitar as reivindicações norueguesas ou as ameaças alemãs, o embaixador dinamarquês nos Estados Unidos, Henrik Kauffmann, procurou que a ilha fosse ocupada pelas forças dos Estados Unidos. O período do “protetorado” estadunidese foi marcado pela construção de muitas infraestruturas devido à guerra. Da mesma forma, os groenlandeses conseguiram, pela primeira vez, exportar peixe e minerais para os Estados Unidos, o Reino Unido da Grã-Bretanha e o Canadá sem a intervenção dinamarquesa.
5️⃣ Quando a Dinamarca recuperou o controle após a guerra, foi forçada a fazer numerosas concessões aos groenlandeses. A administração local foi unificada e foi-lhes concedida representação eleita. Alguns projetos também foram organizados para o desenvolvimento de infraestrutura. Quando a Dinamarca aderiu ao mercado europeu, a Gronelândia votou firmemente contra, temendo que a união aduaneira desse às empresas europeias liberdade para explorar os recursos gronelandeses. As pressões resultaram na concessão de plena autonomia à ilha em 1979. A Groelândia passou a controlar grande parte dos seus assuntos, exceto as relações exteriores, a defesa, os assuntos monetários e o seu sistema jurídico. O atual sistema político também foi estabelecido, com um parlamento local eleito democraticamente e um gabinete com poderes executivos (primeiro-ministro). Em 2008, a Dinamarca cedeu o controle da aplicação da lei, da guarda costeira e do sistema jurídico à Gronelândia. No ano seguinte, foi concedido à ilha o controle parcial das relações exteriores no campo comercial.
6️⃣ Em 2021, o Inuit Ataqatigiit, sob a liderança de Mute Bourup Egede, venceu uma eleição marcada pela discussão sobre um projeto de mineração em um depósito de terras raras. Foi apenas a segunda derrota de Siumut, que teve de se contentar em ser um parceiro júnior da coligação. Primeiro governante nascido após a autonomia, Egede chegou com a promessa de promover a independência total no menor tempo possível e a "diversificação económica ecológica". Ele propôs um referendo para 2025, para coincidir com as eleições gerais.
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