Trump tenta intimidar presidente do Panamá com um ultimato sobre o Canal
⚠️ O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, advertiu no domingo (2/2) que o governo estadunidense tomará medidas contra o Panamá se a influência da China no canal não for reduzida. O principal representante da diplomacia dos Estados Unidos se reuniu com o presidente panamenho José Raúl Mulino em uma visita oficial ao país. De imediato, a pressão deu resultados, o governo de Mulino anunciou que não renovará um memorando de entendimento assinado com a China em 2017 no âmbito da a Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida como a nova rota da seda, um plano estratégico com ramificações geopolíticas e econômicas que é um dos pilares da política externa de Pequim. O secretário de Estado dos Estados Unidos Marco Rubio informou no encontro que o presidente Trump, sustenta que o Panamá violou os termos do tratado de devolução do canal concretizado em 1999. Na reunião, "deixou claro que esse status quo é inaceitável e que, na ausência de mudanças imediatas, seria necessário que os Estados Unidos tomassem as medidas necessárias para proteger seus direitos sob o tratado".
1️⃣ Trump exigiu “mudanças imediatas” para neutralizar a suposta influência chinesa no Canal do Panamá. É a linguagem diplomática mais dura até agora em um impasse no qual os Estados Unidos está envolvido. Para muitos panamenhos, que têm memórias vívidas da invasão do Panamá pelos Estados Unidos durante uma operação militar em 1989, isso provavelmente soará como uma escalada acentuada do impasse desencadeado pela promessa trumpista de retomar o controle do canal. Os Estados Unidos já invadiram o Panamá com certa facilidade, em 1989, na Operation Just Cause, para derrubar e prender o líder panamenho general Manuel Noriega. Na ocasião o presidente George H. W. Bush utilizou mais de 27 mil homens contra cerca de 20 mil militares panamenhos mal equipados. Bush capturou Noriega e facilitou a subida de um aliado. Guillermo Endara "venceu as eleições" em maio de 1989 e foi empossado como presidente do Panamá na base militar estadunidense de Fuerte Clayton, pondo fim à ditadura militar que começou em 1968.
2️⃣ Rubio e Mulino saíram da reunião de duas horas com diferentes interpretações sobre o que pode acontecer. Mulino disse aos repórteres que não via uma ameaça séria de força militar dos Estados Unidos para retomar o canal, dizendo que havia oferecido conversas para abordar as preocupações de Trump sobre a influência chinesa. O presidente panamenho declarou que o controle do canal não está em discussão. "A soberania do Panamá não está em questão, isso é muito importante e expliquei isso em detalhes a Rubio", afirmou. "O canal é operado pelo nosso país e assim continuará sendo". O Departamento de Estado dos Estados Unidos não esclareceu quais medidas seriam tomadas contra o Panamá. Mulino disse à imprensa que não vê uma ameaça de ação militar nem que o tratado esteja em risco. Em 7 de janeiro, Trump deu sinais de que não vai desistir da ambição de obter o controle da Groenlândia e do Canal do Panamá e que não descartava o uso de força militar e econômica para assumir o controle nos dois casos.
‼️ O Panamá foi, por muito tempo, uma província da Colômbia. Sua independência se tornou realidade em 1903 graças ao interesse estadunidenses pelo projeto do canal. Os Estados Unidos fomentaram um movimento separatista e garantiam que manteriam a independência do Panamá desde que o país concedesse a concessão perpétua do canal no tratado Hay-Bunau Varilla com os Estados Unidos. No entanto, as tensões entre os dois países não demorariam a aparecer. Na prática, o Panamá ficou dividido: os americanos e suas famílias viviam em uma zona separada, regida por suas próprias leis, enquanto trabalhavam na obra, inaugurada em 1914. Essa zona era inacessível para os panamenhos sem uma permissão especial, o que alimentou o ressentimento da população local em relação aos privilégios dos chamados "zoneítas". Com o tempo, esse mal estar se traduziu em protestos pela recuperação do controle do canal.
❗️A situação explodiu em 9 de janeiro de 1964, quando estudantes panamenhos tentaram içar sua bandeira em uma escola da zona, mas foram detidos pela polícia estadunidense, o que resultou em uma repressão violenta. Esse incidente, conhecido como o "Dia dos Mártires", foi o catalisador para que, mais de três décadas depois, o Canal do Panamá fosse finalmente transferido para o Panamá. Após longas negociações, em 7 de setembro de 1977, com a assinatura do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, e do líder panamenho, general Omar Torrijos, ambas as partes assinaram o acordo. Foi estabelecido que a soberania da Zona do Canal ficaria sob a legislação do Panamá e que a transferência do controle do canal para o país centro-americano ocorreria em 31 de dezembro de 1999.
3️⃣ Embora o canal seja do Panamá, Rubio e Trump argumentam que a China ganhou tanto poder em torno da infraestrutura que poderia fechá-lo em um possível conflito, com consequências catastróficas para os Estados Unidos. Mulino disse em outras ocasiões que não há "absolutamente nenhuma interferência chinesa" no canal. Na reunião, também foram discutidos temas como imigração e crime organizado. O Panamá se ofereceu para receber migrantes de outros países, desde que os custos das repatriações de não panamenhos sejam cobertos pelo governo estadunidense. "Vamos explorar a possibilidade de ampliar o memorando de entendimento que assinamos em 1º de julho com o Departamento de Segurança Interna para articular mais a questão dos repatriados do Darién", comentou o presidente. "Estão nos enganando no Canal do Panamá", disse o republicano fazendo referência às taxas cobradas aos navios estadunidenses, antes mesmo de tomar posse da Casa Branca. Se isso não mudar, ameaçou Trump, "exigiremos que o Canal do Panamá seja devolvido aos Estados Unidos em sua totalidade, rapidamente e sem questionamentos".
4️⃣ E Trump parece não ter mudado nem um pouco essa posição. Em seu primeiro discurso após tomar posse, reiterou suas aspirações e acrescentou que "maravilhosos soldados da China" estão "operando amorosamente, mas ilegalmente, no Canal do Panamá". O canal do Panamá é um importante Chocke point Geopolítico. A estratégica via navegável, responsável por cerca de 5% do volume do comércio marítimo mundial, é administrada pela Autoridade do Canal do Panamá, uma entidade do governo panamenho, e não por soldados chineses. Empresas chinesas têm uma presença significativa atualmente no Canal do Panamá, tanto pelo volume de carga que transita na via, tornando a China o segundo maior usuário após os Estados Unidos, como pelos investimentos significativos em portos e terminais adjacentes ao canal, como os de Balboa e Cristóbal. Horas antes de embarcar para a Cidade do Panamá, Rubio reiterou que "o presidente Trump está bem claro de que quer administrar o canal novamente". Mulino, por sua vez, enfatizou que a soberania do Canal do Panamá é e continuará sendo dos panamenhos. "Não posso negociar e muito menos abrir uma negociação sobre o canal", disse.
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